Muito mais fácil para você. Menos doloroso, você já tem prática de fuga. Você partiu, mudou o cenário. Eu fiquei no mesmo lugar. Tudo o que nos lembra está à minha volta. Eu percorro os lugares conhecidos, detenho-me nas esquinas, piso o chão onde estava o cinema, vejo a igreja no mesmo lugar, com a torre alta, visível de todos os ângulos. Não há onde me esconder, eu tenho que passar por todos os lugares e sentir toda a emoção que impregna o ar, os muros, as ruas e a mim.
Na rua em que você morou há um peso de lágrimas e ausências que causa dor. Não há como eu desfazer, sozinha, a mágoa densa que ficou ali. Você me deixou como herança toda a tristeza. Já tentei usar as alegrias, a parte boa, mas ela morre de inanição, não tem força para dissipar a grandeza da dor e não tem estofo para preencher o vazio imenso que ficou.
" Dar um beijo em seu sorriso, sem cansaço..."
Estou ouvindo e tentando materializar o sonho, mas os dias passam e vão levando as sensações para um lugar cada vez mais distante, inalcançável. Como adormecem os braços ou as pernas quando ficamos imóveis por muito tempo, também adormecem as sensações quando não são revividas. A imaginação não é suficientemente forte para manter viva uma sensação, embora o perfume e o gosto muitas vezes consigam sobreviver. A falta da participação física, a falta do toque volatiliza o aroma e o gosto se perde por falta de alimento e tudo morre de anemia. O mais doloroso é isso:- ver morrer algo que é exuberante de vida, que só pede para ser nutrido.
Romântico é sonhar e eu sou assim. Nasci, cresci, vivi e vou morrer assim. Se puder abreviar a agonia, eu o farei; se não puder, o esquecimento se faz urgente.
(Juracy Lérco em 30-09-2014)

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