Vida repetida

A vida é uma piada, mas não consegue ser engraçada
É humor negro e nos faz parecer almas penadas
Se sonhar é uma bobagem, temos que ter os pés no chão
Pra que serve a faculdade, aquela da imaginação...

Imaginar um destino que não pode ser realizado
É perder tempo precioso, que deveria ser utilizado
Em viver esse dia a dia, irritante e repetido
Que alguns chamam de vida, mas no qual não vejo sentido...

Nascer, crescer, envelhecer e morrer
É no que se resume a vida que somos obrigados a viver
Aonde fica o intervalo para amar e ser feliz
Que o nosso ser nos cobra e nossa alma nos diz...

Há uma triste confusão no nosso pouco conhecimento
Entre o viver do corpo e o viver do pensamento
No primeiro, cumprimos regras, fazemos o que é adequado
No segundo, há liberdade, criamos o sonho a ser realizado...

Dar conta dessas duas vidas parece ser o segredo
Mas levar a tarefa a cabo, implica em vencer o medo
De contrariar o corpo, quando ele se torna abusado
E também o pensamento receber o freio adequado...

Talvez essa seja a busca, um perfeito equilíbrio
Que pra corpo e pensamento não seja um sacrifício
Misturar as necessidades em doses iguais com as vontades
Obtendo mistura homogênea entre sonho e realidade...


(Juracy Lérco em 27-08-2015)



A hora de mudar

Quando na vida chegamos
A uma encruzilhada
E necessário se faz escolher um caminho
Refletir é preciso
Sobre o resultado que alcançamos
Com o modo de vida que uma vez adotamos
E que nos trouxe a esse ponto
Em que nos vimos sozinhos...

À direita ou à esquerda?
Quê rumo tomar?
É hora da escolha
É preciso pensar
Se até aqui não deu certo
É urgente mudar
Virar a esquina e o passado deixar...

O futuro se faz com uma só decisão
A da vontade firme
Que está em nossas mãos
O que só nos faz mal
Terá que ser descartado
E por mais que soframos, dar sossego ao passado
Se não está no presente
É porque seu tempo passou
Se não anda conosco, outro rumo tomou
Não lamentar essa ida
Foi bom enquanto durou...

O agora exige toda a disposição
Do agora depende o que virá em seguida
Vestir-se de ânimo e retomar a ação
Outra motivação terá que ser escolhida
Nem a saudade
Nem a lembrança mais querida
Deve ser companheira nessa outra estrada da vida...


(Juracy Lérco em 25-08-2015)


Corpo e alma

O mais insuportável de tudo
Que na vida dela acontecera
Era essa lenta agonia
Não vivera, não morrera...
Respirava, e ninguém via
O esforço que ela fazia
Pra fingir que nada sentia...

Morria aos poucos, a cada dia
A alma já se tinha ido
O corpo, teimoso insistia
Em ficar, mesmo corroído
Pela dor que a alma deixou
Quando o corpo abandonou
Partindo pra eternidade
Sufocada pela saudade
Que aquele amor lhe legou...

Essa agonia, tão lenta
Que só o corpo dela aguenta
Não se sabe o que representa
Quando a alma, de si, se ausenta...
Talvez a alma fosse pura
E o corpo merecesse um castigo
Por nesse amor ter insistido
Por não ter da alma ouvido
Os avisos, os conselhos amigos...

Corpo e alma separados
À meia vida, condenados
O corpo, a suportar o suplício
A alma, a receber o benefício
Do fim, que devia ser um...
Somente a misericórdia
De um Céu que se compadeça
Possa trazer a concórdia
Pra que o ser se restabeleça...

Bradar aos Céus um clamor
Em nome do milagre do amor
Para o corpo perdoar a alma
Pelo abandono sofrido
Sem alma e com o coração partido
O que sobrou pra ele foi dor...
Um dia, não se sabe quando
A alma, talvez, volte ao lar
Tomara ela encontre esperando
O corpo que a vai abrigar...

(Juracy Lérco em 22-08-2015)





A chuva

A chuva

A chuva
Dá-me uma sensação estranha
Uma necessidade de abrigo
No abraço de um amigo
É um precisar de aconchego
Como se com a água de fora
Aumentasse a água de dentro...
A chuva
Não é tristeza, é somente
A falta daquele carinho
Que só se encontra no ninho
No conforto de um sofá
Coberto com um edredom
Ou naquela cama arrumada
Com uma colcha quadriculada
Convidativa ao repouso...
A chuva
Sempre me traz a saudade
Dos meus tempos de criança
Quando uma simples poça d’água
Era um convite a brincar
O barquinho de papel
Levado pela água corrente
Navegava até o fim da rua
Sumindo num bueiro lá na frente...
Tudo muda quando chove
Como se a chuva ameaçasse
Causando grandes transtornos
E todos ficam impacientes
Esperando que ela passe
Pra poder seguir em frente...
A chuva
É o pranto do Céu que nos lembra
Que a lágrima pode ser de tristeza
Mas também de felicidade
Ela equilibra a vaidade
Do sol, eterno orgulhoso
Mostrando a todos que o fogo
Também precisa do equilíbrio
Que lhe é dado pela água...


(Juracy Lérco em 20-08-2015)


Ciúme

Dos sentimentos, o ciúme
É uma faca de dois gumes
Ilude o que quer possuir
Molesta o que é possuído
Sufoca o relacionamento
Causa dor no amante e no amado
E, ao invés da união tão querida
Consegue estragar duas vidas...

(Juracy Lérco em 16-08-2015)


Disfarce

Não te cales quando alguém te perguntar a verdade
Talvez não tenhas jamais segunda oportunidade
De sanar o sofrimento que com a mentira causastes...
Recupera o teu respeito, se da mentira te arrependes
Porém isso só se aplica pra quem de caráter entende
Se não souberes o que é moral, nem a consciência compreendes
Vai pela vida, sem crise, destruindo a confiança
Daqueles que acreditaram em ti  e foram cruelmente enganados
E não viram teu coração vazio, só pelo mal habitado...


(Juracy Lérco em 12-08-2015)


Dores...

As dores que aumentam
De onde elas vêm?
Do cansaço do corpo?
Das feridas da alma?
Que mensagem contém?
Algumas feridas
Jamais cicatrizam
Parecem gravadas
Com ferro e com fogo
Esquecida a memória
A dor sufocada
Encontra um modo
De ser sempre lembrada
Se a dor tem remédio,
Alívio e cura
O efeito se faz
Se a alma for pura
Lavá-la com o pranto
Limpar suas janelas
Fazê-la enxergar
Uma vida mais bela
E as dores que aumentam
Irão recuar
Não há dor que resista
Se o sonho acordar
A vida que chama
O corpo que reclama
Tem que despertar
Desenterra essa mágoa
Não a deixe ficar
Para a alma e o corpo
Não mais machucar
A mágoa indo embora
A dor vai com ela
E uma vida mais bela
É possível viver
É esse o remédio
É preciso esquecer...

(Juracy Lérco em 07-08-2015)




Reconstrução

Depois que se instalou o caos
A dor tomou as rédeas da vida
Muito tempo se passou
Sem que houvesse reação...
Quando as lágrimas secaram
Veio o sono profundo
E a vontade de dormir para sempre...

Mas a vida insistiu, persistiu, exigiu
E foi preciso acordar
E reagir
E agir
Reconstruir
Reciclar tudo o que foi vivido
Transformar em algo novo
Puro, sem mácula e sem mágoa...

Nova matéria prima
Mão de obra de primeira
Tapar o buraco do inferno
Vedar toda e qualquer fresta
E por cima alicerçar
O novo começo
Um renascimento total
O passado está enterrado...


(Juracy Lérco em 05-08-2015)