O lado negro da alma

Muito mais fácil para você. Menos doloroso, você já tem prática de fuga. Você partiu, mudou o cenário. Eu fiquei no mesmo lugar. Tudo o que nos lembra está à minha volta. Eu percorro os lugares conhecidos, detenho-me nas esquinas, piso o chão onde estava o cinema, vejo a igreja no mesmo lugar, com a torre alta, visível de todos os ângulos. Não há onde me esconder, eu tenho que passar por todos os lugares e sentir toda a emoção que impregna o ar, os muros, as ruas e a mim.

Na rua em que você morou há um peso de lágrimas e ausências que causa dor. Não há como eu desfazer, sozinha, a mágoa densa que ficou ali. Você me deixou como herança toda a tristeza. Já tentei usar as alegrias, a parte boa, mas ela morre de inanição, não tem força para dissipar a grandeza da dor e não tem estofo para preencher o vazio imenso que ficou.

" Dar um beijo em seu sorriso, sem cansaço..."
Estou ouvindo e tentando materializar o sonho, mas os dias passam e vão levando as sensações para um lugar cada vez mais distante, inalcançável. Como adormecem os braços ou as pernas quando ficamos imóveis por muito tempo, também adormecem as sensações quando não são revividas. A imaginação não é suficientemente forte para manter viva uma sensação, embora o perfume e o gosto muitas vezes consigam sobreviver. A falta da participação física, a falta do toque volatiliza o aroma e o gosto se perde por falta de alimento e tudo morre de anemia. O mais doloroso é isso:- ver morrer algo que é exuberante de vida, que só pede para ser nutrido.
Romântico é sonhar e eu sou assim. Nasci, cresci, vivi e vou morrer assim. Se puder abreviar a agonia, eu o farei; se não puder, o esquecimento se faz urgente.
(Juracy Lérco em 30-09-2014)

Paranóia particular


Experiência própria

Experiência própria

Li um livro com uma história muito bonita, vários trechos me emocionaram e quero transcrevê-los para que mais alguém os aprecie.

" - Penso, às vezes, suspirou, que no Paraíso não teremos oportunidade de pagar a nossa dívida pára com a mulher. Viemos ao mundo graças à agonia de uma mulher, é dela que nos alimentamos, sua sabedoria é que nos ensina, o amor da mulher é que nos ampara, e afinal, é a mulher que nos fecha os olhos. Em todas as crises da vida de um homem, uma mulher está sempre presente, para ajudá-lo se possível, e, tenho observado que em cada crise da vida de uma mulher, o que queremos é dar-lhe as costas e esquivar-nos. Ela auxilia-nos a transpor nossas dificuldades e tem de enfrentar as próprias sozinha. "

" Após um silêncio, o gaiteiro tornou a falar:-
- Há cadeias que a estão aprisionando, começou, mas há outras forjadas pelas suas próprias mãos. Ninguém poderá libertá-la, você mesma deverá fazê-lo. Tudo o que passou, passou, e imagino que nada mais tenha a fazer com elas, como uma borboleta com a crisálida vazia de onde saiu. A lei da vida é o crescimento, não nos podemos atrasar, devemos ir sempre para a frente. Postou-se sozinha numa elevação, como alguém em terreno estéril, continuou ele sonhadoramente. Atrás e à sua frente só vê trevas, com um único pontozinho luminoso. Nesse pontozinho raia um dia. Chegam todos da noite do Amanhã e somem todos na noite do Ontem.
- Tenho pensado nos dias como se fossem homens e mulheres. Penso que para você eles foram primeiro beber com olhos risonhos e mãozinhas gorduchas. Um de cada vez surgiam das trevas e desapareciam nas trevas do outro lado. Alguns trouxeram-lhe brinquedos novos ou flores, outros tristezas infantis, mas, nenhum chegou de mãos vazias. Cada dia depositava a sua dádiva a seus pés e retirava-se. Alguns trouxeram-lhe presentes embrulhados para que tivesse a surpresa de abri-los. Muitos, envoltos em papel brilhante, foram diversos do que você esperava. Várias dádivas felizes chegaram escondidas em papel escuro, que você desembrulhava a medo, temendo o seu conteúdo. Muitos dias trouxeram-lhe vários presentes, outros um só. Com o correr dos dias alguns trouxeram-lhe sorrisos, outros felicidade e amor. Outros ainda apresentaram-se com música e prazeres, e alguns trouxeram-lhe o sofrimento.
- Sim, suspirou Evelina. Alguns trouxeram-me sofrimento.
- Era disso que eu queria que me contasse, continuou o gaiteiro. Foi um dia, não foi? Que lhe trouxe o longo sofrimento?
- Foi.
- Não mais que um? Foi somente um dia?
- Sim, somente um dia.
- Olhe, disse o gaiteiro carinhoso, o dia chegou com a sua dádiva. E você não o deixou depositá-la a seus pés e desaparecer nas trevas do Ontem. Agarrou-se-lhe às vestes cinza não o deixando ir embora. Continuou prescrutando os seus olhos tristes à procura de mais dor ainda. Por quê o segura, impedindo-lhe que siga o seu caminho? Por quê não deixa passar os seus dias?
- Todos os outros dias foram tristes para mim, murmurou Evelina.
- Sim, e por quê? Porque se agarrava àquele primeiro dia, ao que lhe trouxera a dor. E, por isso, de olhos baixos, eles passaram por você, levando suas dádivas para Ontem, onde não mais poderá encontrá-las. Mesmo agora, o dia que segurou luta por libertar-se das cadeias com que você o aprisionou. E não tem o direito de segurá-lo.
- Não devera aceitar a dádiva? perguntou ela. (Sua fantasia agradava-lhe).
- As dádivas sim, mesmo as dádivas de lágrimas, mas nunca um dia. Não pode segurar um dia feliz porque ele passa depressa demais. É o dia triste, o que passa lentamente, foi o que você escolheu para segurar, senhora! Deixe-o passar, suplicou ele.
- E os outros dias, murmurou Evelina, mal articulando as palavras, que trariam eles?
- Ninguém o sabe. Enquanto você se agarrava àquele, os outros passaram à sua frente, carregando suas dádivas para Ontem. A memória protege Ontem, mas há um véu que encobre o rosto do Amanhã.  Imagino, às vezes, que Amanhã seja tão belo que dissimula o rosto.
- É Deus quem dissimula, do contrário não poderíamos viver! exclamou Evelina.
- Senhora, volveu o gaiteiro, vive há muitos anos e ainda não aprendeu esta singela verdade. O que quer que lhe traga o dia, sejam quais forem as suas dádivas de tristezas, se lhe chegar bem perto, encontrará sempre a necessária energia para enfrentá-lo. Recoberta pelo seu fardo de amargura, não lhe perceberá o bálsamo. Mas não o agarre, olhe para frente e divisará a consolação; encontrará flores em meio ao arrependimento, confiança de mistura à dúvida e vida sobrepujando a morte.

(O Rosto nas trevas - Myrtle Reed)
(Postado por Juracy Lérco em 29-09-2014)

Uma pequena viagem no tempo

Uma pequena viagem no tempo

Sinto-me extremamente feliz quando faço exatamente o que quero fazer no momento certo. Livre da escravidão de um sistema, não sei se estou apenas mudando, mergulhando em alguma outra escravidão, mas, mesmo que seja, esta traz uma sensação de conforto emocional.

Estava fazendo uma viagem no tempo e encontrei tesouros da música popular brasileira. Muitas delas, na época, pareciam ter passado sem causar nenhum efeito, porque a juventude vive sempre acelerada e acha que não tem tempo de registrar adequadamente as experiências.

Algumas coisas parecem ter passado desapercebidas para nós, mas, quando a idade mais calma e mais seletiva vem, a memória nos traz de volta tudo o que foi importante, tudo o que marcou e ficou guardado em algum depósito empoeirado dentro de nós, aguardando o momento de vir à tona.

Eu revi grandes nomes da música popular, canções que eu cantava de cór nas brincadeiras infantis em que imitava os cantores que apreciava. As letras das músicas estavam todas ali, como num arquivo de fichas, e cada uma que eu pegava me trazia uma deliciosa sensação de abraçar uma velha amizade, que embora estivesse sempre presente, não se fizera notar até esse momento, como se esperasse eu estar preparada para o reencontro.

Acredito que muitos se lembram com carinho daquelas pessoas desconhecidas fisicamente para nós, mas velhos e queridos amigos do nosso coração, das nossas emoções.Não podíamos vê-las, não havia televisão, só podíamos ouvi-las no radio e a voz delas nos levava a imaginar como eram, como viviam, e se tudo aquilo que nos diziam através das canções retratava um pouco de suas almas, de seus sentimentos, de suas vidas.

Mario Lago, Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Noel Rosa, Elizeth Cardoso, Linda Batista, Nora Ney, Jamelão, Lucio Alves, Moreira da Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Nubia Lafaiete, Nelson Gonçalves, Anisio Silva, Altemar Dutra, Martha Mendonça, Miltinho, Lupicinio Rodrigues, Wilma Bentivegna, Creusa Cunha, Angela Maria, Cauby Peixoto, Roberto Silva, Emilinha Borba e muitos outros.

Cada um deles tem pelo menos uma música que falou ao meu coração em algum momento da minha vida. Depois deles há outras gerações que continuaram a conversa e que significam muito, mas eu estou fixando apenas uma parte, a mais antiga, na época da minha infância, que eu não quero que caia no esquecimento porque merece ser lembrada.

A música é uma coisa fantástica, ela está sempre ao nosso dispor, basta abrir as gavetas. Não nos esquecemos de nada, apenas arquivamos as lembranças para estarem disponíveis aos momentos de recordação.

Recordação significa trazer de volta as coisas que aprendemos com o coração e que o cérebro classificou e guardou em separado para não afetar a caminhada rumo ao futuro. De vez em quando, cansados de caminhar, paramos e recordamos, ou seja, vivenciamos novamente o que foi significativo.

Cada dia eu me convenço mais que o ser humano é a obra mais maravilhosa que um artista único resolveu criar. A beleza do fenômeno que chamamos "vida" é incomparável, é ímpar. Não há como não sentir gratidão por fazermos parte disso, por podermos sentir essa grandeza.
(Juracy Lérco em 28-09-2014)




Frases...

Frases...

" O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). "
Milan Kundera - A insustentável leveza do ser)

" Miserável, a meu ver, quem em sua casa não tem um canto seu, onde possa conversar consigo mesmo, onde lhe seja possível esconder-se. "
(Montaigne - Ensaios)

" A alegria é a passagem onde o homem vai de uma perfeição menor para uma perfeição maior. A tristeza é a passagem onde o homem vai de uma perfeição maior para uma perfeição menor. "
(Spinoza - Ética)

" Quem não se acomoda a este mundo está sempre perto de encontrar a si mesmo. Quem se ajusta e se adapta jamais se encontra. Pode, todavia, tornar-se senador. "
(Hermann Hesse - Para ler e pensar)

" Nada precisa tanto de reformas como os hábitos alheios. "
(Mark Twain - Citações)

" E esta existência vazia relaxara-lhe tão sutilmente o maquinismo da vontade e da ação, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade das horas infindáveis era-lhe odioso como o peso de um fardo injusto. Preferia ainda os tédios da ociosidade aos tédios da ocupação. "
(Eça de Queiroz - O crime do Padre Amaro)

" O objetivo da religião não consiste em arrastar todas as criaturas pela mesma trilha, e, sim, incitá-las a procurar sua própria senda. "
(Jorge Adoum - Adonai)

" Todos os homens vivem encerrados na ignorância como num ôvo. Praticam o bem para serem recompensados e não fazem o mal para não serem castigados. "
(Jorge Adoum - Adonai)

" O caráter do verdadeiro amor oferece constantes similitudes com a infância. Tem dela a irreflexão, a imprudência, a dissipação, o riso e as lágrimas. "
Honoré de Balzac - Ilusões perdidas)

" Poucas provações mais amargas há para os caracteres humanos que a de se sentirem desprezados pela própria consciência. "
(Julio Diniz - As pupilas do Senhor Reitor)

" É natural que haja grande número de pessoas consideradas boas e corretas, pois as piores ações humanas são praticadas às escondidas. "
(Anônimo)


Adaptação

Adaptação

(Extraído do livro Buda e seus ensinamentos)
Embora eu não concorde muito com essa vida de conformação, a história é bastante interessante.

" Quando você aceita tudo, sua vida se torna uma alegria. Ninguém pode fazer com que você fique infeliz, nada pode deixá-lo infeliz.
Um homem com apenas três fios de cabelo entrou num salão de cabeleireiro e pediu que lavassem seus cabelos e depois lhe fizessem uma trança. O cabeleireiro começou o trabalho e quando estava terminando de penteá-los, um dos fios caiu.
O cabeleireiro ficou muito constrangido, mas o homem apenas disse:- Bem, o quê fazer? Acho que agora é melhor repartir o cabelo ao meio!
Com muito cuidado, o cabeleireiro pôs um fio de cabelo para o lado direito e estava para colocar o outro para o lado esquerdo, quando esse também caiu. Ele se desculpou o mais que pôde, mas o homem encarou a coisa com serenidade.
- Bem, ele disse, acho que agora terei de andar por aí com o cabelo despenteado. "

Dedicatória

Dedicatória

(Escrito em 17-06-2004 em dois cadernos que montei para os meus filhos)

É uma pena que o meu talento não seja excepcional, porque, se fosse, tudo o que estivesse escrito aqui seria de minha autoria.
Mesmo assim, procurei reunir coisas que eu li em algum lugar e que me tocaram num ponto sensível, coisas que escrevi em momentos de inspiração. Coisas que achei significativas, coisas que talvez não tenham significado algum mas que algum impulso desconhecido me fez prestar atenção.
São para vocês, meus filhos, se quiserem lê-las algum dia.
Com carinho, de sua mãe.

Precisa-se de um homem...

... que encare a vida de frente, e sem querer ser super-herói, voe com serenidade nas asas de seu destino...
Precisa-se deste homem, especial e comum, que nunca simule afeição nem trapaceie com os sentimentos.
Que saiba conduzir-me com doçura, que saiba orientar-me com inteligência, mas que aceite com humildade os desígnios do meu ser.
Ele deve ser alto, da altura da sua dignidade.
- e belo - como a beleza de seu caráter.
Sua ambição deverá ter a medida certa do alcance dos seus dedos e dos seus sonhos.
Precisa-se urgentemente desse deus-menino para por festa no meu coração,
para atear fogo no meu corpo,
afogar-se nos meus braços
e salvar-nos, por fim, do aniquilamento,
resgatando nossas vidas com o tributo do AMOR TOTAL...

Precisa-se de uma mulher...

Que, além de ser mulher, seja gente
Que antes de ser adulta seja criança
Que tendo vontade de chorar, chore e ria
Que traga alegria e fé para meu desânimo, e, lutando ao meu lado, seja um leão...
Mas seja vibração e loucura me amando.
Precisa-se urgente de um sorriso acolhedor,
de olhos úmidos de emoção.
de lábios amorosos e quentes, que nunca simulem afeição, mas que sejam firmes na defesa de suas vontades.
É imprescindível que saiba dançar e goste do mar,
que seja feiticeira e ame o luar,
que dance na chuva e cante mansinho,
e coce minhas costas com muito carinho.
Precisa-se muito dessa mulher especial e única
Porque será minha.
Que será sempre bela porque a verei com os olhos do espírito.
Que será sempre livre para podermos voar juntos.
Que será sempre rica porque dela serão os tesouros do meu AMOR.


Faça-se a luz!

Faça-se a luz!

"E então eles cobriram suas vergonhas e saíram do Paraíso."
"Eles perceberam que estavam nus e se envergonharam."

Quem criou a serpente do Paraíso?
Se a serpente era o Diabo, como tinha trânsito livre no Paraíso?
Por quê a mulher foi criada de uma parte do peito do homem?
Como a mulher pode ser a personificação do mal, se ela foi criada por Deus para que o homem não vivesse sozinho?
Por quê a maçã é o fruto proibido?
Por quê era proibido ao homem comer o fruto da Árvore da Vida?
Por quê ao tomarem conhecimento de que eram sexualmente diferentes para se complementarem, foram amaldiçoados e expulsos do Paraíso?
Quê experiência fantástica estava sendo realizada por Deus no seu trabalho de Criação?
Quem escreveu o Antigo Testamento?

Perguntas... perguntas... perguntas...
Não se... não sei... não sei...

A Bíblia não oferece respostas. Quem é religioso e se sente satisfeito com o conteúdo da Bíblia e a considera um legado de Deus, que se sinta feliz pela simplicidade de seu coração e de sua mente. Mas, permita que os atormentados e insatisfeitos continuem suas buscas por respostas.

Deus criou o homem e a mulher e eles tinham órgãos sexuais. Não foi uma complementação feita pelo Diabo. O órgão sexual em si, portanto, não era do mal. Só passou a ser do mal quando o homem e a mulher o perceberam, quando o conheceram, quando tiveram consciência dele. Desse mal veio a idéia de pecado, o homem e a mulher pecaram contra Deus ao conhecerem seu sexo. Presumo então que o pecado está na idéia do sexo, seu uso, sua aplicação. Se o prazer acompanhava o sexo para facilitar a procriação forçando o acasalamento, por quê o prazer não podia ser sentido e valorizado? O sexo deveria ser considerado um dever, uma função obrigatória, com o propósito de povoar a terra? Por quê o prazer despertado pelo sexo era uma sensação tão boa que fazia o homem e a mulher se sentirem próximos da divindade, libertando-se das limitações do corpo físico e penetrando mundos desconhecidos, sem medos, livres para voar em busca do infinito? Eram instantes, mas a noção do tempo também mudava, era um passeio pela eternidade, tornando dois em um numa comunhão total.

Esse conhecimento custou ao homem e à mulher a expulsão do Paraíso. A expressão "eles se conheceram" foi largamente usada nos escritos para significar que ele se uniram sexualmente. Presumo que o ato sexual é conhecimento. Conhecimento de quê?

(Estava conversando com meu filho e as indagações rolaram soltas. Ele expôs suas opiniões a respeito e delas eu tirei novas conclusões.)

Por quê em todas as línguas ou idiomas (nós comprovamos isso) temos expressões idênticas para o jogo sexual?
" A mulher dá para o homem."
" O homem quer comer a mulher."
" A mulher quer ser possuída."
" O homem quer possuir a mulher."

O quê a mulher tem de tão especial e valioso em sua natureza que ela anseia desesperadamente entregar ao homem? ("Entregar-se" também faz parte das palavras mais usadas.)
O quê o homem sabe que a mulher tem que ele anseia desesperadamente comer, alimentar-se disso?
O quê a mulher tem que ela quer que o homem possua?
O quê o homem sabe que a mulher tem e ele anseia possuir?

O homem é o caçador e a mulher é a caça, isso nunca vai mudar. Perdoem-me as feministas que querem que homens e mulheres tenham direitos iguais, mas acabam estendendo isso ao comportamento, ao papel que representam, à função de cada um. Isso nunca vai poder ser igual. Homem e mulher são naturezas diferentes para se complementarem e não para disputarem papéis. Que fique bem claro que eu aprovo a mulher trabalhando e ocupando qualquer cargo para o qual seja competente e que não vejo desdouro nenhum se o homem lavar a louça ou trocar o bebê. Essas bobagens do cotidiano nada tem a ver com o que falamos sobre o papel (não gosto do termo, parece representação) ou função (melhor esse) a desempenhar. A mulher atrai, o homem conquista, é o yin e o yang se unindo para criar alguma coisa.

Quero deixar bem claro uma outra coisa que se aprende estudando ocultismo e psicologia, ou simplesmente observando a vida. O filho, resultado de um ato sexual para procriação é a última obra que o sexo permite criar. O filho, ou os filhos representam a não-realização das possíveis criações que o sexo engloba, por falta da compreensão e do conhecimento, e que simbolizam a motivação deixada por herança, ou seja, os pais não conseguiram, mas talvez os seres de sua continuidade possam conseguir.

Voltando às frases. É claro que o termo "possuir" contém a idéia de "propriedade. A mulher quer que o homem a possua porque a posse vai representar cuidados e continuidade. O homem quer possuir a mulher pelo mesmo motivo. Daquilo que é dele, ele vai cuidar e vai ter sempre.

Todos já ouviram dizer que a prostituição é a profissão mais velha do mundo. Voltamos ao valor e especialidade daquela alguma coisa que a mulher tem e que o homem quer, estando disposto até a pagar por isso, de tão importante que é. Uma boa quantidade de homens não consegue reconhecer a mulher que "quer dar para ele", Então, em última instância, ele compra o que precisa comer. Uma boa quantidade de mulheres não consegue reconhecer o homem que quer comê-la, Então, em última instância, ela coloca um preço e vende para aquele que aparecer.

O poder contido na energia sexual é o poder da criação e era isso que o homem não deveria descobrir. As religiões cuidaram para que o homem e a mulher acreditassem ter pecado contra Deus, criaram até o "pecado original", do qual somos todos produtos e é um estigma do qual não devemos nos esquecer. Para não ficar tão evidente o desprezo pela mulher, criaram até uma que foi mãe, mas permaneceu imaculada, ou seja, não cometeu o pecado original. Presumo que a mulher para ser reconhecida pela igreja como ser existente terá que permanecer virgem, haja vista as freiras dos conventos. O homem teve também a sua cota, foi premiado com a glória do celibato. Foi mais ou menos assim:- homem, mantenha distância da mulher porque ela é a tentação e o demônio; mulher, fique longe do homem e mantenha-se pura para Deus. O que eles nunca disseram é que sempre morreram de medo que homem e mulher se unissem e descobrissem  a verdade sobre a união sexual. Pra quê mais deuses? Um é o bastante. E fizeram questão de apresentar um deus irado, com condenações ao inferno, que deve ser OBEDECIDO, TEMIDO e AMADO.

Lamento.
Não, não lamento não.
Se eu tiver que ter um deus que sabe tudo o que é bom pra mim, que resolve a minha vida do jeito que ele acha melhor, que considere a minha vontade verdadeira como bobagem e do qual eu deva esperar todas as soluções para os meus problemas, eu não existo.
Se eu tiver que ter um deus que me tire o que eu mais amo porque talvez vá me dar algo que ele considera melhor, eu passo.
Se eu tiver que ter um deus que me deu o pensamento, a inteligência, a emoção,  mas não adianta eu fazer uso disso porque ele é quem vai decidir por mim, eu passo.
Eu sento, espero, e ele que resolva tudo.

Minha idéia de Deus, o meu Deus, com maiúscula, é aquele (ou aquilo) que me criou, colocou em mim tudo o que eu precisaria para viver bem e me disse:- "vire-se, a minha parte eu já fiz, o resto é com você."

Ao meu Deus eu dedico AMOR, RESPEITO e ADMIRAÇÃO. Não o obedeço porque Ele não me dá ordens, ele me deu a possibilidade de escolha; não o temo porque jamais ele me puniria. As minhas escolhas erradas me punem.

Eu fico imaginando o meu Deus, sorrindo, balançando a cabeça, surpreso com as coisas que lhe atribuem, não interferindo, deixando todos simplesmente viverem.
(Juracy Lérco em 27-09-2014)




Engano da Criação

Engano da Criação

Deus criou uma maravilha de mundo. Tudo suficiente. aliás, tudo em abundância. Água doce e limpa até não poder mais, água salgada, espaço para tudo, árvores para dar sombra, árvores com frutos, caça variada, peixes saborosos, comida para nunca acabar, cavernas para abrigos, sol, lua, estrelas, ar puro para a saúde, plantas medicinais, pedras e rochas com fartura, minerais e até venenos para quem se entediasse de tanta fartura e beleza.
Deu até inteligência para o ser humano usar tudo isso com sabedoria. Nada em excesso, nada em escassez.
Só se enganou quando disse; multiplicai-vos e povoem a terra.
Multiplicar era uma coisa boa. Melhor que comer, que dormir, que banhar-se em águas limpas, melhor que caçar, melhor que saborear doces frutos, melhor que sentir o delicioso aroma das flores, melhor que acordar com o canto dos belos pássaros. melhor do que construir cabanas, melhor que lapidar pedras.
Aí, danou-se.
O povo gostou tanto do "multiplicai-vos", que esqueceu progressão aritmética, progressão geométrica, teoria das probabilidades, e multiplicou sem parar, porque era a coisa mais deliciosa do mundo.
Resultado:- água insuficiente, comida insuficiente, espaço insuficiente, poluição e sujeira em abundância, doenças, catástrofes, e queixas e mais queixas sobre a porcaria de mundo em que se sobrevive, não mais se vive.
Engano de Deus?
Creio que não.
(Juracy Lérco em 25-09-2014)

Lembranças

Eu cursava o colegial, primeiro ano, era 1964.
Estávamos na aula de História, professora D. Marina, um tanto severa e irônica, mas muito boa professora. Havia alunos (a maioria) que antipatizavam com ela e chegaram a retirar a madeira frontal da mesa onde ela sentava para ver ela cruzar as pernas e se divertir, ridicularizando-a.
Até hoje não entendi porque os jovens agem dessa forma tão estúpida e se acham o máximo.
Os que fizeram a "arte" se acharam muito espertos, não contando que a professora tinha muitos anos de magistério e estava preparada para todo tipo de artimanhas em que eles usassem sua criatividade precária.
Ela percebeu e não se sentou. Um aluno mais atrevido, que já me elegera a mais chata da classe porque eu era contra suas manifestações de infantilidade, moleque irritante, "filhinho de mamãe", que chegava de Mercedes-Benz todos os dias e motorista particular, resolveu perguntar à professora porque ela não se sentava, para ficar mais confortável. Esse moleque era um dos "riquinhos" da época, que estudava no colégio público, tomando o lugar de algum aluno pobre que precisava da vaga, porque o colégio era o melhor de São Paulo e o colegial estudado ali dava ingresso direto para a faculdade.
A professora olhou para ele e dessa vez não se conteve. Chamou-o de menino mimado, de usurpador da vaga de alguém realmente produtivo e significativo para a sociedade, e disse que só não lamentava o tremendo esforço que sempre fizera para ser uma boa professora porque ele era apenas "um" numa turma que aprendera de verdade o que ela ensinava. Disse que só lamentava não ter poder para tirar aquela maçã podre do cesto para não estragar as outras.
E, vejam bem, naquela época ainda não existia o ECA que veio encher de poder esse tipo de adolescente. Se existisse o ECA, coitada da professora. No mínimo, teria que fazer uma retratação pública e perder o cargo. Mas não houve problema nenhum porque parece que o futuro "político", única carreira que podíamos prever para aquele futuro cidadão, não quis fazer queixa e não quis que os pais soubessem de sua aventura.

Mas não era nem isso que eu queria contar.
A lembrança mais marcante que eu tenho dessa professora, D, Marina, é de um dia em que nós, os alunos, estávamos atacados pela necessidade de falar e ela não conseguia fazer com que calássemos a boca para ela poder dar a matéria. Num dado momento, ela ficou em pé e disse:-
"Falem, falem, seus tagarelas, mas é bem feito que vocês não possam saber o que é "Suave é a noite" e eu sei".
Houve um silêncio geral, na mesma hora. "Suave é a noite", ou Tender is the night era um filme com Jason Robards e Jeniffer Jones que estreara no cinema e que nós não podíamos assistir por causa da idade. A trilha sonora era maravilhosa, Johnny Mathis esmagava os nossos corações cantando, mas tínhamos que nos contentar só com a música, o filme era proibido.
Ela sorriu, vendo nossas carinhas de pesar e começou a dar a aula.

O mais interessante é que no ano seguinte foi inaugurado o anfiteatro de nosso colégio. E, para a inauguração, foi exibido o filme dos nossos sonhos.
Finalmente, eu fiquei sabendo o que era "Suave é a noite".
E nunca esqueci.

ACREDITAR...

ACREDITAR...

A realidade é como um remédio ruim. Sabemos que é necessário, mas é duro de engolir.
Como eu pude acreditar que era amor?
Que amor era esse se ele nunca teve necessidade de me ver, de ouvir a minha voz, de olhar nos meus olhos, de me tocar, de me abraçar, de me beijar?
Embora essas perguntas se fizessem presentes o tempo todo, eu aquietava o coração ansioso, dizendo que ainda não era o momento, mas que o tempo certo chegaria.
O tempo foi passando e o momento nunca chegou. E quando eu pedi um encontro, ele se recusou, alegando estar num mau momento, sem cabeça para "essas coisas".
"Essas coisas" foi como ele chamou o amor que só eu acreditei que houvesse entre nós. Que somente eu queria que houvesse.
Na verdade, eu amei sozinha desde o início; da parte dele não consigo encontrar uma definição do sentimento que havia, se é que houve algum sentimento.
Eu queria tanto ser amada por ele, que me convenci que ele me amava. Eu sentia tanta necessidade da presença dele, que acreditava que ele também sentia. Eu queria tanto estar em seus braços, tocar seu rosto, abraçá-lo e beijá-lo, que acreditei que ele também me queria. Eu o sentia tão parte de mim, que acreditei que também fosse parte dele. Eu queria tanto olhar nos olhos dele, puros e lindos, sempre amados, que acreditei que ele também ansiasse por ler amor nos meus olhos.
Eu acreditei que ele tivesse me acordado para a vida, mas agora vejo que estava dormindo e sonhando. Sonhando que era possível. Sonhando que, finalmente, eu tinha alcançado a felicidade que sempre procurei.
Ele me enganou, mentiu para mim, e fugiu covardemente sem explicações. O choque foi tão grande que aí, sim, eu acordei. Despertei para encarar a mim mesma e me perguntar se já não era o suficiente para sair da ilusão.
A dor foi tão intensa que eu morri mil vezes antes de aceitar a verdade.
Agora, estou acordada. Pronta para tomar o remédio ruim e engoli-lo. Que o remédio ruim cumpra o seu papel e me mantenha acordada pelo resto dos meus dias, para nunca mais acreditar.
(Juracy Lérco em 11-09-2014)

TALVEZ...

Talvez haja vida depois da morte...
Talvez Deus exista mas não conseguimos nos comunicar com ele...
Talvez os mortos estejam ao nosso lado, em uma dimensão que não alcançamos...
Talvez o tempo e o espaço sejam ilusórios e só exista o aqui e o agora...
Talvez o Universo seja obra de mero acaso e nossas noções de propósito sejam
o recurso para não nos sentirmos inúteis...
Talvez nascer abençoado ou amaldiçoado seja questão de sorte ou azar...
Talvez usemos somente 10% do cérebro ou talvez tenhamos só 10% de cérebro...
Talvez exista vida inteligente (?) em outros planetas...
Talvez os órgãos dos sentidos que são duplos sejam a chave para o conhecimento
correto:- ver e ouvir...
Talvez uma avalanche faça barulho, mesmo que não haja ninguém para ouvir...
Talvez achemos injusto carregarmos um estranho dentro de nós que age à
revelia do que queremos...
Talvez os deuses eram mesmo astronautas que iniciaram uma experiência no
nosso planeta e, por falta de suporte técnico, não puderam voltar para terminar...
Talvez Adão tenha sido o primeiro homem e ele era de quatro cores...
Talvez encontremos a nossa alma gêmea e não gostemos dela por
ser muito parecida conosco...
Talvez sejamos somente uma projeção do pensamento universal...
Talvez o progresso e a tecnologia que servem à nossa comodidade sejam as
barreiras que erguemos para impedir nosso próprio avanço...
Talvez as ameaças não existam e todas as defesas são inúteis...
Talvez o nosso inconsciente não nos permite obter as respostas às nossas
perguntas porque elas podem nos aniquilar...

Não sei se existe tortura maior do que tudo se resumir a um "talvez". O "sim"
ou o "não" já nos mantém num constante estado de suspense, mas quando
entra o "talvez" a possibilidade de definição é nula. E, mesmo assim, vivemos.
(Juracy Lérco em 11-09-2014)


Pituquinha

Para:- Pituquinha
Às vezes,

(05-09-1991 a 21-09-2005)

Às vezes, você me olhava como se sua vida dependesse de mim...
Às vezes, você me olhava como se sua vida nada tivesse a ver comigo...
À vezes, você me cercava tanto, reprovando minhas ausências, que
parecia que era minha dona...
Às vezes, você me ignorava tanto, que eu duvidava que fosse sua dona...
Às vezes, você atendia de pronto a qualquer chamado, com as orelhas
em pé e o rabo fazendo festa...
Às vezes, você fingia que não ouvia e ficava na sua...
Às vezes, eu perdia a paciência com sua rebeldia ou seu marasmo, mas
logo eu pensava que devia haver uma causa que estava deixando você
mal, e era sua tentativa de me falar a respeito...
Às vezes, eu entendia o que o seu olhar dizia...
Às vezes, eu me revoltava por não conseguir fazer você me entender,
ou por não conseguir entender você...
Às vezes, você me divertia tanto com suas atitudes ou falta delas,
que eu esquecia qualquer outra coisa e sentia uma necessidade vital
de retribuir com todo carinho esses momentos felizes...
Um relacionamento intenso com uma comunicação precária...
Você nunca conseguiu dizer que me amava, mas eu sabia...
Não adiantava eu dizer que te amava, mas você sentia...
Aí, você ficou doente e teve que ir embora...
Perdõe-me por não ter conseguido vencer essa batalha por você!

ESTA VIDA

Um sábio me dizia:- "Esta existência não vale a angústia de viver. A ciência, se fõssemos eternos, num transporte de desespero, inventaria a morte! Uma célula orgânica aparece no infinito do tempo; e vibra, e cresce, e se desdobra, e se estala num segundo... Homem, eis o que somos nesse mundo!"

Falou-me assim o sábio e eu comecei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer...

Um monge me dizia:- "Ó Mocidade, és relâmpago ao pé da Eternidade. Pensa o tempo, anda sempre e não repousa. Esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher chora, um berço a um canto. O riso, às vezes;quase sempre o pranto...
Depois o mundo, a luta que intimida. Quatro círios acesos:- eis a vida!"

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
Dentro da própria morte, o encanto de morrer...

Um pobre me diz:- "Para o pobre, a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus? Eu não creio nessa fantasia! Deus me dá fome e sede a cada dia,
mas nunca me deu pão e nem me deu água.
Nunca! Deu-me a vergonha, a eterna mágoa, de andar, de porta em porta, esfarrapado...
deu-me esta vida:- um pão envenenado!"

Disse-me isso o mendigo e eu continuei a ver
Dentro da própria morte, o encanto de morrer...

Uma mulher me disse:- "Vem comigo! Fecha os olhos e sonha, meu amigo!
Sonha um lar, uma doce companheira, que queiras muito e que também te queira...
Um telhado, um penacho de fumaça. cortinas muito brancas na vidraça.
Um canário que canta na gaiola. - Que linda a vida lá por dentro rola...

Pela primeira vez eu comecei a ver
Dentro da própria vida, o encanto de viver...

Com Ciência

Fiquei sabendo de mais um caso de atropelamento em que o motorista se acovardou e não prestou socorro à vítima. Imagino a frieza que é necessário ter para ver uma pessoa toda machucada, que você machucou, que pode morrer, e você foge de cena para salvar a própria pele ou para não se envolver em complicações.
Uma pessoa assim simplesmente não tem consciência.
Certa vez, numa palestra da Gnose, o orador estava nos explicando o que era o "carma". Ele dizia que são as atitudes erradas que tomamos, quando temos consciência do erro. Para ter carma é preciso consciência, então? eu perguntei. Ele me respondeu:- Sim. Se alguém aperta, sem perceber, um botão que pode detonar as bombas que vão acabar com o mundo, ela não terá carma, pois em sua atitude não houve consciência.
Se a consciência é aquele tipo de voz ou de pensamento que interfere quando estamos prestes a fazer algo errado, algo que vai prejudicar alguém além de nós, que não tem culpa nenhuma, só posso concluir que as pessoas que fazem mal aos outros consideram o acontecimento um acidente de percurso apenas, elas não ouvem nenhuma voz e nem têm pensamentos que possam fazê-las recuarem antes da ação.
No caso do atropelamento e negação de socorro à vítima, o motorista pode alegar que não teve a intenção, que também foi pego de surpresa e não é justo pagar pelas consequências. Eu concordo com essa parte. Porém a situação tem dois aspectos. Supondo que ninguém tivesse sidi atropelado. Que, simplesmente, o motorista visse uma pessoa ferida, caída no chão, precisando de socorro. Será que, por não ter sido ele o causador do problema ele ajudaria a pessoa ferida? Será que sua humanidade se manifestaria então? Mas, se ele não tem consciência para uma coisa, como pode ter para outra?
Eu conheci uma pessoa que certa vez me disse "ser livre de consciência". Embora eu tenha achado a afirmação um tanto estranha, interpretei como "consciência limpa", ou seja, uma pessoa que procura agir sempre corretamente para não carregar pesos desnecessários em sua consciência. Foi aí que me enganei. Essa pessoa tinha conseguido, de verdade, livrar-se da própria consciência. Tinha um mecanismo de auto-defesa tão desenvolvido que o acionava imediatamente após cometer um erro. Perdoava a si mesma por tudo e não tinha o menor escrúpulo de não pensar mais a respeito dos males que causava. Não pedia desculpas nem perdão. Pra quê? Não havia feito nada errado.  As vítimas que fossem socorridas por outros ou que socorressem a si mesmas, porque essa pessoa fugia covardemente do local do acidente, salvando a própria pele e até achando que as vítimas é que poderiam lhe fazer algum mal.
Talvez já estejamos num mundo onde a maioria das pessoas ficou "livre da consciência. Nós, que temos consciência, somos a espécie em extinção. Isso não está acontecendo somente com a consciência. Está acontecendo também com a dignidade, a sinceridade, o respeito e o limite. Há pessoas que não respeitam o limite, invadem a vida de outras, mentem, enganam, desrespeitam, para, em seguida, fugirem, sem dignidade, do local do acidente. Não se incomodam em macular coisas sagradas porque não respeitam nada nem ninguém. Derramam a lama que carregam dentro de si tentando contaminar os demais com sua própria doença.
Não esperamos justiça divina porque isso não existe. Se existisse, não veríamos atrocidades como as que vemos todos os dias. Temos recursos ou defesa? Não sei. A única coisa em que consigo pensar é em que as pessoas que ainda valorizam coisas como a dignidade, a palavra, a sinceridade, o respeito e o limite, precisam valorizar mais uma:- a inteligência.
(Juracy Lérco em 10-09-2014)