Paranóia particular


Eu morri. E fui para o inferno.
Quando pronunciaram a sentença, confesso que fiquei um pouco surpresa. Ou melhor, muito surpresa. Fazia já um bom tempo que eu levava uma vida de mosteiro  e acreditava que havia pago todos os meus pecados de quando não era santa. Eu não nasci santa, eu me tornei santa. Uma boa parte do mérito foi das circunstâncias, eu admito, mas houve alguma contribuição minha. Pois é:- eu levei uma vida de mosteiro por muito tempo. Preferia pensar que estava num mosteiro porque ele é para a clausura de homens. Eu sempre disse que os homens são o que são, mas as mulheres nunca são o que são. Nesse período de mosteiro, eu me dediquei à família, ao bem-estar comum, tornei-me uma avó de verdade, fui uma boa filha, tentei ser uma boa mãe, boa sogra, boa com todo mundo.

Claro que houve momentos em que o antigo pavio curto voltou. Mas isso foi porque levaram o teste da minha paciência até o limite. Eu procurei seguir os ensinamentos de Jesus, mas nunca concordei  com aquela história de dar a outra face. Apanhar duas vezes é burrice. E se sempre houve uma coisa que acendia o meu curto pavio era ouvir asneiras ditas com solenidade. As pessoas que ousaram fazer isso saíram chamuscadas.
Deve ter sido isso que pesou na balança do julgamento e eu fui condenada ao inferno.
Ou foi porque no Brasil não tem grande juri e eu nem pude contar com alguém que percebesse que eu tinha minhas razões. A justiça no Brasil sempre deixou a desejar. Se morremos aqui, o julgamento é de terceiro mundo.
Mas, tudo bem. Fui condenada, não houve como apelar e eu fui para o inferno.
Em vida, eu já estava treinando um pouco de desapêgo, sempre me forçando a lembrar que quando morresse não poderia levar as coisas que gosto.
Ficava pensando também em como seria viver algo desconhecido, sem todas as coisas às quais havia me acostumado. Era triste, mas ao mesmo tempo, a chance de experimentar algo diferente parecia estimulante.
Ficar livre das contas para pagar, das goteiras em dias de chuva, dos incontáveis olhares para as coisas que precisavam ser consertadas, mas que continuavam quebradas porque o dinheiro nunca era suficiente para tudo. Não precisar mais tomar banho, trocar de roupa, comer menos para emagrecer, não sentir mais dores no corpo, não culpar-se por não dormir à noite e acordar tarde, não ter que ir ao banco, não ter que limpar a casa, não ter que aguentar conversas desagradáveis...
Finalmente eu estava livre de tudo isso.
Só o que me preocupava um pouco é que eu estava no inferno e inferno significa castigo, tormento eterno. Será que havia chamas para me consumir? Mas eu estava morta. Consumir o quê? Qual seria o castigo que me estava destinado?
Levaram-me até uma casa. Sim, uma casa comum, uma casa como eu conhecia em vida, com quartos, sala cozinha, banheiro e quintal. Pensei comigo mesma:- Será que tudo vai continuar igual?
Disseram-me que eu iria morar ali por toda a eternidade.
- OK, então tá!
Entrei e comecei a explorar o lugar. Era uma bela casa, de fato. Bons móveis, tudo arrumadinho, belas cortinas (que eu não havia conseguido colocar na minha casa da vida), bonitos tapetes, toda a iluminação funcionando e tomadas por todo lugar.  Cozinha grande, banheiro com todo conforto, sofás bonitos e confortáveis, quartos maravilhosos.
Fiquei encantada, mas não conseguia acreditar. Então o inferno era essa beleza? A poeira não juntava, as coisas não se sujavam, a comida estava sempre pronta, a geladeira sempre cheia e havia um lugar que eu amei mais do que todos:- uma espécie de sala-de-lazer-biblioteca-jogos-som-vídeo. Todos os aparelhos que eu pudesse ter desejado estavam ali:- toca-discos, toca-cds, televisão, Dvd, gravadores, placas de captura, computador e vídeogames.  Até o ultrapassado video-cassete estava ali e havia muitas fitas para assistir. A televisão passava, em sequência, os filmes da minha lista do tempo em que estava viva e que não havia conseguido gravar.
Extasiada diante dos recursos que agora eu possuía, pensei que finalmente eu completaria a famosa coleção de filmes com que sonhara tanto. Liguei o gravador de Dvds, coloquei um disco para ser iniciado. Finalmente eu gravaria "Edward mãos de tesoura", pois ia começar dali a pouco. O Dvd processou o disco, mas devolveu-o com a legenda:- "não pode reproduzir este disco."
Pensei:- Não, de novo, não!
Saí correndo da casa e chamei um dos sujeitos que havia me trazido até ali e pedi-lhe uma providência, pois o aparelho de Dvd estava com defeito. Ele me respondeu ser impossível, porque naquele local tudo era perfeito. Eu perguntei:- "E a assistência técnica? "
Ele me olhou estranhamente e disse:- "Não temos isso aqui."

Eu percebi que estava no inferno mesmo.

(Juracy Lérco, escrito em 25-02-2008)

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