Fiquei sabendo de mais um caso de atropelamento em que o motorista se acovardou e não prestou socorro à vítima. Imagino a frieza que é necessário ter para ver uma pessoa toda machucada, que você machucou, que pode morrer, e você foge de cena para salvar a própria pele ou para não se envolver em complicações.
Uma pessoa assim simplesmente não tem consciência.
Certa vez, numa palestra da Gnose, o orador estava nos explicando o que era o "carma". Ele dizia que são as atitudes erradas que tomamos, quando temos consciência do erro. Para ter carma é preciso consciência, então? eu perguntei. Ele me respondeu:- Sim. Se alguém aperta, sem perceber, um botão que pode detonar as bombas que vão acabar com o mundo, ela não terá carma, pois em sua atitude não houve consciência.
Se a consciência é aquele tipo de voz ou de pensamento que interfere quando estamos prestes a fazer algo errado, algo que vai prejudicar alguém além de nós, que não tem culpa nenhuma, só posso concluir que as pessoas que fazem mal aos outros consideram o acontecimento um acidente de percurso apenas, elas não ouvem nenhuma voz e nem têm pensamentos que possam fazê-las recuarem antes da ação.
No caso do atropelamento e negação de socorro à vítima, o motorista pode alegar que não teve a intenção, que também foi pego de surpresa e não é justo pagar pelas consequências. Eu concordo com essa parte. Porém a situação tem dois aspectos. Supondo que ninguém tivesse sidi atropelado. Que, simplesmente, o motorista visse uma pessoa ferida, caída no chão, precisando de socorro. Será que, por não ter sido ele o causador do problema ele ajudaria a pessoa ferida? Será que sua humanidade se manifestaria então? Mas, se ele não tem consciência para uma coisa, como pode ter para outra?
Eu conheci uma pessoa que certa vez me disse "ser livre de consciência". Embora eu tenha achado a afirmação um tanto estranha, interpretei como "consciência limpa", ou seja, uma pessoa que procura agir sempre corretamente para não carregar pesos desnecessários em sua consciência. Foi aí que me enganei. Essa pessoa tinha conseguido, de verdade, livrar-se da própria consciência. Tinha um mecanismo de auto-defesa tão desenvolvido que o acionava imediatamente após cometer um erro. Perdoava a si mesma por tudo e não tinha o menor escrúpulo de não pensar mais a respeito dos males que causava. Não pedia desculpas nem perdão. Pra quê? Não havia feito nada errado. As vítimas que fossem socorridas por outros ou que socorressem a si mesmas, porque essa pessoa fugia covardemente do local do acidente, salvando a própria pele e até achando que as vítimas é que poderiam lhe fazer algum mal.
Talvez já estejamos num mundo onde a maioria das pessoas ficou "livre da consciência. Nós, que temos consciência, somos a espécie em extinção. Isso não está acontecendo somente com a consciência. Está acontecendo também com a dignidade, a sinceridade, o respeito e o limite. Há pessoas que não respeitam o limite, invadem a vida de outras, mentem, enganam, desrespeitam, para, em seguida, fugirem, sem dignidade, do local do acidente. Não se incomodam em macular coisas sagradas porque não respeitam nada nem ninguém. Derramam a lama que carregam dentro de si tentando contaminar os demais com sua própria doença.
Não esperamos justiça divina porque isso não existe. Se existisse, não veríamos atrocidades como as que vemos todos os dias. Temos recursos ou defesa? Não sei. A única coisa em que consigo pensar é em que as pessoas que ainda valorizam coisas como a dignidade, a palavra, a sinceridade, o respeito e o limite, precisam valorizar mais uma:- a inteligência.
(Juracy Lérco em 10-09-2014)
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