Experiência própria
Li um livro com uma história muito bonita, vários trechos me emocionaram e quero transcrevê-los para que mais alguém os aprecie.
" - Penso, às vezes, suspirou, que no Paraíso não teremos oportunidade de pagar a nossa dívida pára com a mulher. Viemos ao mundo graças à agonia de uma mulher, é dela que nos alimentamos, sua sabedoria é que nos ensina, o amor da mulher é que nos ampara, e afinal, é a mulher que nos fecha os olhos. Em todas as crises da vida de um homem, uma mulher está sempre presente, para ajudá-lo se possível, e, tenho observado que em cada crise da vida de uma mulher, o que queremos é dar-lhe as costas e esquivar-nos. Ela auxilia-nos a transpor nossas dificuldades e tem de enfrentar as próprias sozinha. "
" Após um silêncio, o gaiteiro tornou a falar:-
- Há cadeias que a estão aprisionando, começou, mas há outras forjadas pelas suas próprias mãos. Ninguém poderá libertá-la, você mesma deverá fazê-lo. Tudo o que passou, passou, e imagino que nada mais tenha a fazer com elas, como uma borboleta com a crisálida vazia de onde saiu. A lei da vida é o crescimento, não nos podemos atrasar, devemos ir sempre para a frente. Postou-se sozinha numa elevação, como alguém em terreno estéril, continuou ele sonhadoramente. Atrás e à sua frente só vê trevas, com um único pontozinho luminoso. Nesse pontozinho raia um dia. Chegam todos da noite do Amanhã e somem todos na noite do Ontem.
- Tenho pensado nos dias como se fossem homens e mulheres. Penso que para você eles foram primeiro beber com olhos risonhos e mãozinhas gorduchas. Um de cada vez surgiam das trevas e desapareciam nas trevas do outro lado. Alguns trouxeram-lhe brinquedos novos ou flores, outros tristezas infantis, mas, nenhum chegou de mãos vazias. Cada dia depositava a sua dádiva a seus pés e retirava-se. Alguns trouxeram-lhe presentes embrulhados para que tivesse a surpresa de abri-los. Muitos, envoltos em papel brilhante, foram diversos do que você esperava. Várias dádivas felizes chegaram escondidas em papel escuro, que você desembrulhava a medo, temendo o seu conteúdo. Muitos dias trouxeram-lhe vários presentes, outros um só. Com o correr dos dias alguns trouxeram-lhe sorrisos, outros felicidade e amor. Outros ainda apresentaram-se com música e prazeres, e alguns trouxeram-lhe o sofrimento.
- Sim, suspirou Evelina. Alguns trouxeram-me sofrimento.
- Era disso que eu queria que me contasse, continuou o gaiteiro. Foi um dia, não foi? Que lhe trouxe o longo sofrimento?
- Foi.
- Não mais que um? Foi somente um dia?
- Sim, somente um dia.
- Olhe, disse o gaiteiro carinhoso, o dia chegou com a sua dádiva. E você não o deixou depositá-la a seus pés e desaparecer nas trevas do Ontem. Agarrou-se-lhe às vestes cinza não o deixando ir embora. Continuou prescrutando os seus olhos tristes à procura de mais dor ainda. Por quê o segura, impedindo-lhe que siga o seu caminho? Por quê não deixa passar os seus dias?
- Todos os outros dias foram tristes para mim, murmurou Evelina.
- Sim, e por quê? Porque se agarrava àquele primeiro dia, ao que lhe trouxera a dor. E, por isso, de olhos baixos, eles passaram por você, levando suas dádivas para Ontem, onde não mais poderá encontrá-las. Mesmo agora, o dia que segurou luta por libertar-se das cadeias com que você o aprisionou. E não tem o direito de segurá-lo.
- Não devera aceitar a dádiva? perguntou ela. (Sua fantasia agradava-lhe).
- As dádivas sim, mesmo as dádivas de lágrimas, mas nunca um dia. Não pode segurar um dia feliz porque ele passa depressa demais. É o dia triste, o que passa lentamente, foi o que você escolheu para segurar, senhora! Deixe-o passar, suplicou ele.
- E os outros dias, murmurou Evelina, mal articulando as palavras, que trariam eles?
- Ninguém o sabe. Enquanto você se agarrava àquele, os outros passaram à sua frente, carregando suas dádivas para Ontem. A memória protege Ontem, mas há um véu que encobre o rosto do Amanhã. Imagino, às vezes, que Amanhã seja tão belo que dissimula o rosto.
- É Deus quem dissimula, do contrário não poderíamos viver! exclamou Evelina.
- Senhora, volveu o gaiteiro, vive há muitos anos e ainda não aprendeu esta singela verdade. O que quer que lhe traga o dia, sejam quais forem as suas dádivas de tristezas, se lhe chegar bem perto, encontrará sempre a necessária energia para enfrentá-lo. Recoberta pelo seu fardo de amargura, não lhe perceberá o bálsamo. Mas não o agarre, olhe para frente e divisará a consolação; encontrará flores em meio ao arrependimento, confiança de mistura à dúvida e vida sobrepujando a morte.
(O Rosto nas trevas - Myrtle Reed)
(Postado por Juracy Lérco em 29-09-2014)

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