Uma pequena viagem no tempo

Uma pequena viagem no tempo

Sinto-me extremamente feliz quando faço exatamente o que quero fazer no momento certo. Livre da escravidão de um sistema, não sei se estou apenas mudando, mergulhando em alguma outra escravidão, mas, mesmo que seja, esta traz uma sensação de conforto emocional.

Estava fazendo uma viagem no tempo e encontrei tesouros da música popular brasileira. Muitas delas, na época, pareciam ter passado sem causar nenhum efeito, porque a juventude vive sempre acelerada e acha que não tem tempo de registrar adequadamente as experiências.

Algumas coisas parecem ter passado desapercebidas para nós, mas, quando a idade mais calma e mais seletiva vem, a memória nos traz de volta tudo o que foi importante, tudo o que marcou e ficou guardado em algum depósito empoeirado dentro de nós, aguardando o momento de vir à tona.

Eu revi grandes nomes da música popular, canções que eu cantava de cór nas brincadeiras infantis em que imitava os cantores que apreciava. As letras das músicas estavam todas ali, como num arquivo de fichas, e cada uma que eu pegava me trazia uma deliciosa sensação de abraçar uma velha amizade, que embora estivesse sempre presente, não se fizera notar até esse momento, como se esperasse eu estar preparada para o reencontro.

Acredito que muitos se lembram com carinho daquelas pessoas desconhecidas fisicamente para nós, mas velhos e queridos amigos do nosso coração, das nossas emoções.Não podíamos vê-las, não havia televisão, só podíamos ouvi-las no radio e a voz delas nos levava a imaginar como eram, como viviam, e se tudo aquilo que nos diziam através das canções retratava um pouco de suas almas, de seus sentimentos, de suas vidas.

Mario Lago, Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Noel Rosa, Elizeth Cardoso, Linda Batista, Nora Ney, Jamelão, Lucio Alves, Moreira da Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Jorge Veiga, Nubia Lafaiete, Nelson Gonçalves, Anisio Silva, Altemar Dutra, Martha Mendonça, Miltinho, Lupicinio Rodrigues, Wilma Bentivegna, Creusa Cunha, Angela Maria, Cauby Peixoto, Roberto Silva, Emilinha Borba e muitos outros.

Cada um deles tem pelo menos uma música que falou ao meu coração em algum momento da minha vida. Depois deles há outras gerações que continuaram a conversa e que significam muito, mas eu estou fixando apenas uma parte, a mais antiga, na época da minha infância, que eu não quero que caia no esquecimento porque merece ser lembrada.

A música é uma coisa fantástica, ela está sempre ao nosso dispor, basta abrir as gavetas. Não nos esquecemos de nada, apenas arquivamos as lembranças para estarem disponíveis aos momentos de recordação.

Recordação significa trazer de volta as coisas que aprendemos com o coração e que o cérebro classificou e guardou em separado para não afetar a caminhada rumo ao futuro. De vez em quando, cansados de caminhar, paramos e recordamos, ou seja, vivenciamos novamente o que foi significativo.

Cada dia eu me convenço mais que o ser humano é a obra mais maravilhosa que um artista único resolveu criar. A beleza do fenômeno que chamamos "vida" é incomparável, é ímpar. Não há como não sentir gratidão por fazermos parte disso, por podermos sentir essa grandeza.
(Juracy Lérco em 28-09-2014)




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