Dona de casa

As mãos, maltratadas, por tanta roupa lavada
Por toda a roupa passada, por tanto chão esfregado
Os cabelos, cortados rente,  em constante desalinho
Com fios brancos insistindo e persistindo em se mostrar
O abandono de si mesma em troca da casa limpa
Deixou-a esquecida de tudo, nem olhava suas mãos
Pelas rugas envelhecidas e pelo excesso de sabão
Seu rosto, com a pele áspera, desgastado pelos anos
Seu sorriso não se via, e nem seus olhos brilhavam
Dona de casa ela era, a mulher se existira
Fora deixada lá atrás, quando esta vida assumira
Seus pensamentos, estreitos, limitados pela casa
Se sonhos tivera um dia, há muito que não sonhava
Era a rainha do lar, mas triste era o seu castelo
Terminadas as limpezas, as faxinas do dia a dia
Sentava-se a um canto, exausta, já pensando no outro dia
Afazeres tinha aos montes, em lazer sequer pensava
Quando lhe sobrava um tempo, mais tarefas procurava
Viveu assim sua vida, e no dia em que adoeceu
Perguntou-se, dolorida, afinal pra quê viveu?
Um casamento monótono suportou a vida inteira
Os filhos, ela os criara e educara para serem bons
Mas o que viveriam eles, se crescessem como ela
Com o dever estampado, sem nunca alterar o tom
Vivera para a obrigação, não procurou ser feliz
Nem questionava os motivos, aceitava o que lhe veio
E a vida, indiferente,  como ela nada pedira
Deixou que vivesse assim, deu-lhe deveres de sobra
Deveres que, agora doente, não podia mais cumprir
Acorrentada a uma cama, ela olhava sua casa
E desculpava a si mesma por não ter mais aquela força
Que tinha ao limpar o fogão, que reluzente ficava
Foi morrendo, pouco a pouco e só no fim se perguntou
Pra quê se esforçara tanto, se de si nunca cuidou
Agora o fim já chegara, nada mais tinha ao seu alcance
A morte não ia deixar que a vida lhe desse outra chance...

(Juracy Lérco em 30-06-2015)







Saudade

Saudade

Só a morte justifica uma saudade
Saudade é o sentimento de não ver
De não tocar
O amor...
Saudade é o sentimento pelo que ficou
No passado
E já não pode ser alcançado...
Se o amor existe, se o amor persiste
Esse amor não pode se chamar saudade
Se ele insiste e ainda resiste
Não se contenta em viver como lembrança
Lembrança do que nem chegou a acontecer um dia
Não é amor, é nostalgia
Ter saudade desse amor
É negar-lhe a existência
É matar um sonho que não chegou a ser sonhado
É obrigar o futuro a se tornar passado
Sem passar pelo presente
E querer mantê-lo na mente
Sem dar-lhe a chance de dizer para que veio
É deixá-lo morrer no parto, prematuramente
Sem a primeira respiração
É homicídio culposo
Para o qual não há perdão

(Juracy Lérco em 21-07-2015)




Desinteresse

Já nada me interessa sobre a vida
E não tenho curiosidade sobre a morte
Entrei em letargia
Olho para o mundo
Está tudo parado
Sem vida, sem movimento
Não há ação nem reação
Sobrou este momento
Em que estou no meio de uma linha
Que é infinita à direita e à esquerda
Mas recuso-me a escolher qualquer dos lados
Porque não quero me mover
Quero ficar aqui, sem pensar, sem sentir
Olhando a eternidade passar por mim...

(Juracy Lérco em 20-07-2015)


Caminhar com os Anjos

Procurei nos quatro cantos do mundo, o que eu desejava para ser feliz...

Vasculhei com Rafael o Leste, e ele me ofereceu saúde. Eu agradeci e continuei...

Percorri com Miguel o Sul, e ele purificou minha alma. Eu agradeci e continuei...

Andei com Uriel por todo o Norte e ele me cobriu de bens. Eu agradeci e continuei...

Quando cheguei no Oeste, lá estava Gabriel, pensativo... Ele não pode me ofertar nada. O amor havia acabado..

Voltei para casa, triste.
Eu tinha tudo, mas não consegui ser feliz...

(Juracy Lérco em 20-07-2015)




Quietude...


Vida e Morte

Por quê, na metade da vida
Começamos a ter medo da morte
A primeira metade é de sonhos
De planos que contam com a sorte
Na primeira metade da vida
Só precisamos ser fortes
Depois da metade da vida
Procuramos muito mais suportes

Vivemos em duas etapas
A primeira é de construção
Na segunda, mudamos o ritmo
E buscamos a preservação
Garantias de quê, nós buscamos?
Se tudo é incerto e nossa decisão
Não impede que tudo se acabe
Quando para de bater o coração

Depois da metade da vida
Percebemos que tudo é ilusão
O desejo de viver para sempre
Enfraquece com a luz da razão
Na segunda metade da vida
Entendemos que é só uma opção
Aceitamos a inevitável morte
Não há mais refúgio na imaginação

Pensar sobre o fim é um doloroso processo
Mas não nos pode vencer a tristeza
Pode o fim ser um novo começo
De algo belo, para nossa surpresa
Não sabemos o que vem com a morte
Dela, o que temos é só a certeza
Ela virá, mas desconhecemos o dia
Em que seremos levados pela correnteza

A metade da vida pensando em viver
A outra metade pensando em morrer
Às vezes procuro uma explicação
Do processo todo, sem ter conclusão
Pra onde vão nossos sonhos e anseios
O quê quer dizer “viver plenamente”
Se a morte não liga para os nossos receios
E nos lança na dúvida do “eternamente”...


(Juracy Lérco em 14-07-2015)


Perdão

Para quem tem consciência, não é fácil perdoar-se por ter causado um grande mal a alguém. 
Mesmo que não tenha havido a intenção, o deixar acontecer sem desculpar-se, apenas se negando a falar a respeito, modifica a ausência de propósito e gera a culpa.
Esse perdão só pode ser dado por aquele que recebeu o mal, sem ter culpa.
Mas isso só vai importar para aqueles que têm consciência...

(Juracy Lérco em 11-07-2015)




Minha paixão

O meu amor por palavras
Rege toda a minha vida
Escrevo, leio, desenho
Nenhuma letra é esquecida

De todas, procuro sinônimos
Conjugo verbos, procuro rimas
Até nas palavras cruzadas
Me interessam os antônimos

Eu sou fã dos coletivos
Dos predicados e dos adjuntos
Fico encantada com as letras
Que formam os adjetivos

A gramática é uma paixão
A sintaxe um atrativo
As funções do "que" e do "se"
Se convertem em objetivo

Letras, símbolos, tanto faz
Tudo o que é escrito me fascina
Nas linhas e nas entrelinhas
Até um "outdoor" me ensina

Um bilhete bem escrito
Tem valor de documento
Resumido, porque atende
A urgência de um momento

Uma carta é mais longa
E dependendo do conteúdo
Pode não chegar a dizer nada
Mas pode conseguir dizer tudo

A escrita é o maior dom
É conquista do ser humano
Ela tanto traduz a verdade
Como a mentira e o engano

Escrever  é uma forma de agir
Os temas sempre irão variar
Na escrita vamos traduzir
Até o que não conseguimos falar...

(Juracy Lérco em 07-07-2015)