Lembranças

Eu cursava o colegial, primeiro ano, era 1964.
Estávamos na aula de História, professora D. Marina, um tanto severa e irônica, mas muito boa professora. Havia alunos (a maioria) que antipatizavam com ela e chegaram a retirar a madeira frontal da mesa onde ela sentava para ver ela cruzar as pernas e se divertir, ridicularizando-a.
Até hoje não entendi porque os jovens agem dessa forma tão estúpida e se acham o máximo.
Os que fizeram a "arte" se acharam muito espertos, não contando que a professora tinha muitos anos de magistério e estava preparada para todo tipo de artimanhas em que eles usassem sua criatividade precária.
Ela percebeu e não se sentou. Um aluno mais atrevido, que já me elegera a mais chata da classe porque eu era contra suas manifestações de infantilidade, moleque irritante, "filhinho de mamãe", que chegava de Mercedes-Benz todos os dias e motorista particular, resolveu perguntar à professora porque ela não se sentava, para ficar mais confortável. Esse moleque era um dos "riquinhos" da época, que estudava no colégio público, tomando o lugar de algum aluno pobre que precisava da vaga, porque o colégio era o melhor de São Paulo e o colegial estudado ali dava ingresso direto para a faculdade.
A professora olhou para ele e dessa vez não se conteve. Chamou-o de menino mimado, de usurpador da vaga de alguém realmente produtivo e significativo para a sociedade, e disse que só não lamentava o tremendo esforço que sempre fizera para ser uma boa professora porque ele era apenas "um" numa turma que aprendera de verdade o que ela ensinava. Disse que só lamentava não ter poder para tirar aquela maçã podre do cesto para não estragar as outras.
E, vejam bem, naquela época ainda não existia o ECA que veio encher de poder esse tipo de adolescente. Se existisse o ECA, coitada da professora. No mínimo, teria que fazer uma retratação pública e perder o cargo. Mas não houve problema nenhum porque parece que o futuro "político", única carreira que podíamos prever para aquele futuro cidadão, não quis fazer queixa e não quis que os pais soubessem de sua aventura.

Mas não era nem isso que eu queria contar.
A lembrança mais marcante que eu tenho dessa professora, D, Marina, é de um dia em que nós, os alunos, estávamos atacados pela necessidade de falar e ela não conseguia fazer com que calássemos a boca para ela poder dar a matéria. Num dado momento, ela ficou em pé e disse:-
"Falem, falem, seus tagarelas, mas é bem feito que vocês não possam saber o que é "Suave é a noite" e eu sei".
Houve um silêncio geral, na mesma hora. "Suave é a noite", ou Tender is the night era um filme com Jason Robards e Jeniffer Jones que estreara no cinema e que nós não podíamos assistir por causa da idade. A trilha sonora era maravilhosa, Johnny Mathis esmagava os nossos corações cantando, mas tínhamos que nos contentar só com a música, o filme era proibido.
Ela sorriu, vendo nossas carinhas de pesar e começou a dar a aula.

O mais interessante é que no ano seguinte foi inaugurado o anfiteatro de nosso colégio. E, para a inauguração, foi exibido o filme dos nossos sonhos.
Finalmente, eu fiquei sabendo o que era "Suave é a noite".
E nunca esqueci.

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