REFLEXÕES

Alimentamo-nos para sustentar o nosso corpo, para fornecer-lhe energia, para conservá-lo vivo e apto para desenvolver todas as atividades da nossa vida material. O lugar em que vivemos, a dimensão em que estamos colocados, em espaço e tempo, exige que tenhamos um corpo, um material palpável com sentidos e necessidades que precisam ser satisfeitos para seguirmos o ritmo normal do que chamamos "vida". Os sentidos nos permitem perceber tudo o que é útil e tudo o que é prejudicial ao nosso corpo, e, através deles sabemos o que devemos absorver ou não do meio que nos cerca.
Porém, de tudo o que é absorvido, ainda há que ser feita a divisão, pelo próprio organismo, entre o que vai ser retido e o que vai ser eliminado. E o nosso organismo está adaptado para essa divisão ou seleção de material porque possui aparelhos que vão cumprir as funções de absorção e eliminação, e também de transformação, mesmo que nossa consciência não participe do processo.
Até aqui, tratamos do corpo como se fosse uma máquina. Mas, toda máquina, por complexa e funcional que seja, teve um criador, alguém que a projetou, que a construiu e que conseguiu fazê-la funcionar.
E nós?
E a máquina chamada ser humano?
Esta máquina, além de todas as funções que se repetem como um relógio, uma calculadora, uma televisão, um radar, um avião ou qualquer outra, tem um outro sentido que lhe permite "saber" que é uma máquina. Ora, as outras máquinas não sabem que são máquinas; não se perguntam porque foram criadas; para quê foram criadas; por quem foram criadas; como foram criadas e quanto tempo terão de funcionamento.
Se nós nos perguntamos tudo isso, temos dentro desse complicado mecanismo, em algum lugar, alguma coisa que complementa e diferencia nossa máquina das demais.
Somos animados por outra fonte de energia, pois nos locomovemos por nós mesmos, escolhemos a maneira de funcionar, temos capacidade dew planejar, de "pensar", de programar, de praticar atos diversos, de nos comportarmos de maneiras diferentes, além de termos domínio sobre as demais máquinas.
Pensando nisso, surgem em nós duas perguntas que nunca conseguimos responder. A primeira é:- " o quê fui antes de ser o que sou? "A segunda é:- " o quê serei depois de ser o que sou? ' Os mistérios do nascimento e da morte são as duas coisas sobre as quais não temos direito de escolha e cujas respostas o nosso raciocínio não alcança.
Diante dessas duas incômodas incógnitas nasce o desejo de saber, de perguntar, de conhecer. Queimamos o cérebro de tanto pensar e a resposta é o silêncio. Não há explicação disponível. Então, somos obrigados a criar, a inventar uma teoria que nos mantenha, senão satisfeitos, ao menos tranquilos e confiantes. E se temos a percepção do que é bom e do que é ruim, o bom nos dando sensação de leveza e o ruim nos dando sensação de peso, alguma coisa nos indica que o bom corresponde ao certo.  Nasce a idéia de uma força superior, toda poderosa, que nos criou, nos projetou e nos deu o que chamamos de vida. E essa força que nos presenteou só pode ser boa. Nasce a idéia de Deus.
Deus nos criou.
Para quê?
Nasce a idéia de finalidade, de missão, alguma forma de retribuir ou agradecer a vida. Porém, a visão que temos do fim da vida material é a de um corpo se desmanchando e nada faz sentido. Somos quase que obrigados a pensar que existe uma continuidade após o corpo findar, que o corpo foi apenas um invólucro temporário, um casulo do qual saímos transformados para a próxima etapa. Essa parte de nós que pensa, que pergunta, continua. Chamamos de alma ou espírito.
A pergunta "como?" nunca foi respondida. A pergunta "quanto tempo?" também não. Se conseguirmos aceitar que são mistérios e que a força criadora não vê necessidade em que saibamos, continuamos  e aceitamos que nos foi dado um enigma para que o desvendemos. Se não conseguimos aceitar, vamos viver em função  da busca desse conhecimento.
Na minha opinião, não importam os profetas, os videntes, os médiuns, os milagres, os livros escritos, as teorias, op dogmas religiosos, porque tudo isso tem a participação de um ser humano igual a mim, que fez a si mesmo as perguntas que eu me faço e que as respondeu conforme a sua natureza. É um ser humano que quer tornar universais sensações apenas suas; que quer projetar objetivamente sua subjetividade e esta poderá não ser aplicável a outro ser humano.
As respostas só podemos ouvir dentro de nós, é a força que nos comanda, seja ela chamada de vontade, escolha, raciocínio, consciência, sentimento ou qualquer outra coisa. Só se conseguirmos as respostas dentro de nós é que poderemos alimentar essa parte que está em nosso corpo, mas não é ele, e que deverá sobreviver a ele. Há muita gente que diz que Deus nos abandonou. Talvez seja verdade. Mas também podemos pensar que a força criadora colocou em nós todas as ferramentas que iríamos necessitar e que colocou à nossa volta todos os recursos. Talvez seja para arregaçarmos as mangas e fazer o nosso trabalho, o de Deus já foi feito quando nos criou. A dualidade de todas as coisas são as pistas para a ação. Podemos escolher entre alegria e tristeza, entre satisfação e sofrimento, entre ódio e perdão, entre revolta e compreensão, sempre haverá opções.
Se estamos à mercê de um fim que não conhecemos porque não caminhar até ele fazendo o que nos sussurra a voz interna e tornando esse caminho agradável? Pode ser que as respostas que tanto buscamos estejam só na próxima etapa. Ou não.
(por Juracy Lérco em 16-03-1984)

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