O pensamento vai longe e me leva a outras reflexões. Terceiro é tudo que vem depois do segundo; não deve ser uma coisa boa porque presume dois acontecimentos ou estágios anteriores. Se o primeiro tivesse dado certo, não haveria o segundo. Se há um terceiro é porque duas coisas já se acabaram. Ninguém fala em terceira chance, é ridículo. A escolha presume duas opções, não três. Terceira idade soa para mim como uma tentativa estúpida de querer voltar à primeira ou à segunda, repetindo coisas que já foram feitas (como um baile, por exemplo) para não se sentir morto, para afastar a morte que já está rondando.
São muitos os "terceiros". O Brasil é "terceiro mundo" e vejam o que estamos enfrentando. Uma eleição que nos obriga a votar, mesmo sem opção de candidato. Um é ruim. o outro é "mais ruim" o terceiro é pior e o resto não existe. Criou-se até a expressão "menos pior" para que a ilusão da boa escolha permaneça. Anular o voto, dizem alguns políticos filósofos, é não ter personalidade, não ter opinião. Votar em branco é falta de coragem, é confissão de incapacidade. Pois bem, eu, convidada para um baile de terceira idade, confesso minha incapacidade e renuncio ao meu direito de escolha. Nem sei se a minha terceira idade já me permite não participar dessa maravilhosa oportunidade de entregar o meu país ao governo de um desses candidatos que estão aí, mas resta-me o recurso de não ter personalidade e anular o meu voto.
Deve ser porque o planeta Terra, segundo eu aprendi na infância, é o terceiro planeta em relação ao Sol, e, como eu já disse, terceiro nunca é uma coisa boa. A Astronomia mudou, não sei se conseguiu uma outra colocação para o nosso pobre planeta, tão lindo quando visto do espaço.
Terceiro é sempre um problema. O terceiro colocado, em qualquer coisa, sempre é alguém que logo vai ser esquecido, alguém que não conta, é medalha de bronze, é premio de consolação. O segundo ainda tem importância porque aparenta ter ameaçado o primeiro, mas o terceiro fez o quê? Só chegou depois.
O terceiro marido ou a terceira esposa é a busca pelo atestado de incompetência total. Se escolheu errado duas vezes, como tem o topete de tentar mais uma vez? Haja disposição para tentativa e erro. O terceiro filho, mais um exemplo, quase sempre é um descuido ou uma tentativa desesperada de consertar um casamento acabado. O primeiro e o segundo filhos podem ser desculpados porque havia o entusiasmo de ter menino ou menina; mas, o terceiro é para quê? Talvez um híbrido?
Claro que isso não se aplica às famílias brasileiras, porque neste país a maioria tem filhos sonhando com o time de futebol mais os reservas. Não arcam com o sustento de dois, mas têm uma ninhada enorme e entregam para o governo cuidar; e o governo, muito esperto, alega ser um problema social e sacrifica aquelas famílias que respeitaram seus limites, obrigando-as, pela leis, a pagar as contas. Se terceiro, nestes casos, já era muito, imaginem quarto, quinto,,, até décimo-terceiro, muitas vezes. Nem em um país que tem décimo-terceiro salário para seus trabalhadores. É preciso bolsa-família, bolsa-boné, bolsa-calçademarca, bolsa-detenção, bolsa-crack. Uma bolsa-tenhavergonhanacaraetrabalhe ou uma bolsa-façamenosfilhosporquevocênãopodesustentar, câmara nenhuma aprova.
De tanto pensar em "terceiro" acabei chegando a uma inovação, adotada há pouco:- a terceirização.
A terceirização é um sistema criado por alguma brilhante inteligência para diminuir o custo do serviço das empresas prestadoras de serviço, e para facilitar e acelerar o atendimento e cumprimento desses serviços. Para o cliente, aquele que paga pelo serviço? Claro que não. Para e tão somente para a empresa que presta o serviço. Você contrata o serviço com uma empresa, aparece um carro estranho na sua porta e identifica-se como "terceiro" da tal empresa. A instalação de um telefone, por exemplo. O "terceiro" só está autorizado a colocar o fio até o poste da sua casa, que, naturalmente, você é obrigado a ter. Do poste para dentro de casa é preciso contratar outro "terceiro". Como você está sem telefone, liga do celular (é obrigado a ter um celular também), mas não adianta porque a solicitação tem que ser feita por "e-mail". É preciso, então, ter um computador e saber operá-lo, senão, nada feito. Terceira idade já é uma lástima, imaginem tendo que usar computadores e celulares. Quando você consegue, tudo bem. E quando, não sei porque cargas d'água, o "site" insiste em classificar o seu celular como "inválido"? É verdade, eu tenho um celular que é meu há um tempão, mas desc
obri que ele é inválido.
Estou vivendo esse drama agora, porque tive a não tão brilhante idéia de trocar de operadora de TV a cabo (droga, não é a cabo, é fibra óptica) e de telefone. Estou sem telefone fixo há 15 dias e confesso que estou adorando a situação. Tirando um descanso do maldito toque, que sempre me faz pular em sobressalto. Detesto telefone, gosto de olhar nos olhos da pessoa com quem converso.
Concluindo, três é um princípio perigoso, nefasto. Os triângulos amorosos que o digam. Três é o caminho da discórdia, da inveja, do ciúme, da traição, da suspeita e do desassossego. E terceiro é o intrometido, o que vem para acabar com a harmonia de dois.Sabe o que mais?
Não vou ao baile da terceira idade. Agradeço, mas recuso o convite.
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