Rede social?

Cada vez mais adeptos, é uma coisa incrível. Possibilitou o preenchimento do vazio da vida de muita gente. Fazendo "amigos", curtindo piadas, participando de enquetes que rendem mais de 50 comentários, muitas vezes, sendo curtido, compartilhado, recebendo uma massagem no ego quando está desabando... enfim uma ótima ajuda para evitar o aniquilamento que a solidão provoca. Reconheço que é mais benéfico que prejudicial se não levarmos tão a sério.

Eu, desde os tempos do Orkut, sempre me recusei participar da rede social. Sou anti-social de nascença, é uma doença que já se tornou crônica e que eu não tenho o menor interesse em curar.
Sempre tive medo de multidões, eu sufoco. Sou claustrofóbica também e ficar presa à página da rede social é o mesmo que trancar-se num armário e não ver a luz do sol. Também tenho horror do passado, joguei o meu inteiro no lixo, nunca prestou para nada. E com essa filosofia eu chegava a ser chata, porque tentava doutrinar os outros a fazer o mesmo. \eu dizia para os meus filhos:- " o passado, a gente enterra. De preferência num lugar sem acesso para nunca ser tentado a desenterrar." Eles achavam meio radical e exagerado isso mas concordavam.

Insistiram tanto para eu participar da rede social que, depois de resistir durante dois anos, brava e argumentativamente, cedi e concordei. Confesso que no começo até me entusiasmei porque descobrira um lugar onde podia usar o meu humor irônico e, muitas vezes, até desabafar o mau humor. Encontrei um pessoal bacana, a maioria familiares e amigos e era bom receber bonitas mensagens e saber um pouco da vida dos outros.

Havia alguém procurando por mim, lá do passado. Do passado mesmo, muito tempo, que devia estar enterrado bem fundo. Durante um tempo, não fiz caso. Minha vida era aquela coisa insôssa, mas era minha. Eu colecionava filmes, colecionava miniaturas, fazia colchas e mais colchas de crochê, cuidava de todo o serviço da casa e dos netos, jogava video-game (jogava muito). Como eu sempre dormi muito pouco, dava tempo até de escrever. Gostei de escrever a minha vida toda. Tenho uma letra linda, posso até escrever errado que as pessoas não percebem porque estão encantadas com a letra. Tenho cadernos e mais cadernos onde registrei tudo o que me vinha à cabeça, sobre todos os assuntos.

Resolvi atender ao chamado do passado. Eu não costumo me arrepender das coisas que faço, sempre segui o lema que era melhor arrepender-se do que foi feito, do que curtir a frustração de não ter experimentado. Nunca quis sentir saudade "do que poderia ter sido", acho isso deprimente. É bom sentir saudade (de vez em quando) do que realmente vivemos, não do que gostaríamos de ter vivido., isso dá uma sensação de impotência. Se queríamos de verdade uma coisa, porque permitimos que a vida nos arrastasse a outra? O que eu quero, de verdade, eu não abro mão. Vou lutar até conseguir. Não me desvio dos meus objetivos, se fizer isso estou traindo a mim mesma.


Arrependo-me amargamente de ter atendido esse chamado.  Literalmente, esse fato destruiu a minha vida. Não jogo mais video-game, abandonei os meus queridos filmes, encaixotei as miniaturas e não quero ouvir falar em colchas de crochê. O restante tenho que continuar fazendo, mas faço de uma forma tão mecânica que consigo sentir o que sente o meu aspirador de pó.

Nunca imaginei que pudesse haver pessoas que tivessem a coragem para invadir a vida de uma outra pelo simples prazer de destruí-la. Mentir, enganar, qual o prazer que há nisso? Eu me considerava inteligente, mas cheguei à conclusão que não sou, porque, com toda a minha experiência, e com toda a minha intuição que sempre funcionou, não percebi que a pessoa só estava se divertindo às minhas custas. Tenho que juntar os pedaços,  e só me resta o arrependimento por ter sido tão burra.  O pior é que a pessoa acaba conhecendo-nos tão bem que sabe que não há desforra. Eu nunca me desforrei de nada e não é agora que vou começar. Não dou a outra face, mas apanho uma só vez. Desaforos, vinganças são palavras que não mantenho no meu vocabulário.

A pessoa, mesmo tendo causado esse mal, primeiro foge covardemente e se esconde; depois continua levando sua vida normalmente, sem o menor peso na consciência. Ela não deve explicações de suas ações a ninguém. E o pior é que tenho que reconhecer que ela tem razão. Quem mandou eu permitir a invasão? No fim, a culpa é minha. Tentei jogar no limbo outra vez, como sempre fiz, mas, não sei porque, desta vez é diferente, não consigo me recusar a lembrar. Só fico me perguntando:- "Por quê?"

O mais engraçado é que eu, ainda sob o impacto do golpe sofrido, recebi outra mensagem. Do mesmo passado. Mais alguém cuja vida fôra marcada pela minha passagem e que não me esquecera. Pensei:- "Céus, eu sou the chosen one. " O quê mais querem de mim agora, a salvação de todos aqueles que conheci no passado?

Consultei um terapeuta. Arrumei para a minha cabeça. O terapeuta me disse que essas coisas acontecem porque não foram resolvidas ou foram mal-resolvidas no passado e se a pessoa se recusa a lembrar do passado, a vida se encarrega de trazer aqueles que vão obrigá-la a lembrar, queira ou não. Disso depende uma vida emocional satisfatória daqui para frente. E quem disse que eu estou interessada numa vida emocional daqui para frente, satisfatória ou não?  A minha vida foi bastante emocionante, tive emoções suficientes. Até me lembro do Roberto Carlos e sua música:- Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi... Vivi mesmo e chega.

Gato escaldado tem medo de água quente, minha mãe me dizia. e eu me queimei feio. O recurso que me restou foi abandonar de vez a "rede social". É a única maneira que achei de me defender de outras possíveis pessoas cuja vida eu tenha marcado de alguma forma. De repente, mais alguém resolve me procurar e eu não vou saber o que fazer. Já chega viver angustiada com a pergunta que não quer calar e não vai ser respondida:- Por quê?

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