Depois de muita luta, muito trabalho e muito sacrifício, a vida havia melhorado. Filhos bem encaminhados, uma casada, outro preparando-se para casar, um neto inteligente, uma casa metade reformada, prática e confortável. Planos para completar a reforma. Irmãos e irmãs com vidas estáveis, vidas honestas de muito trabalho, a estabilidade alcançada na velhice, em troca da conservação do caráter e da dignidade, como fomos ensinados pelos nossos pais.
Eu votei no senhor, Presidente. Meus filhos também votaram. Aliás, eu já havia votado no senhor naquela eleição perdida porque o senhor se declarou ateu. Foi um erro. Neste país, onde a religião é pura superstição, onde as pessoas acreditam que Deus dará um jeito em tudo, onde se costuma esperar as coisas caírem do céu, é realmente uma bravata um candidato ao governo ou prefeitura de São Paulo declarar-se ateu. Para o povo brasileiro, o prefeito, governador ou presidente é Deus, e ele espera que essas figuras realizem o papel, ou seja, cuidem de dar-lhe o que ele precisa ou deseja.
Depois que nossa mãe faleceu em 1997, nós nos reunimos aqui na minha casa, que, a bem da verdade, ainda não é minha, para continuar uma tradição de quando ela era viva, visto que eu sempre morei com ela. Essas reuniões sempre foram muito boas, mas politicamente delicadas. A minha família, eu e meus filhos, ficávamos encurralados pelas queixas dos demais. Metade é petista. Vivem como qualquer capitalista, mas se declaram petistas e defensores dos fracos e oprimidos. A outra metade já teve uma vida financeira bem melhor, tipo classe média antiga, e são malufistas de carteirinha. Acreditam piamente na vantagem do "rouba, mas faz", nem percebem que também são roubados. Uma das irmãs, diretora de escola aposentada que, embora se queixando de que o senhor havia se tornado arrogante, de que o poder havia lhe subido à cabeça, reconhecia que o seu governo era bom e que o senhor era um grande estadista. Esta irmã ajudou a reelegê-lo.
Eu e meus filhos, no meio disso, sempre defendendo o senhor, Presidente. Apontando para a melhora de vida que o real nos trouxe, comprovando a sua capacidade de firmar a imagem do Brasil como um país sério internacionalmente, Falávamos para eles fazerem uma análise honesta da vida confortável que estavam levando (duas televisões, duas geladeiras, telefone sem fio, celular, freezer, dois pontos de TV a cabo, lavadora, secadora, etc..). Depois de muita argumentação, embora não conseguíssemos que eles deixassem de pensar no Lula ou no Maluf, pelo menos eles mudavam de assunto.
De repente, crise de energia elétrica.
O Presidente vai fazer um pronunciamento à nação. Todos estavam aqui em casa. Fomos ouvir o que o senhor tinha a dizer. Eu ouvi o seu pedido de colaboração e fiquei até comovida, disposta na mesma hora a abrir mão de qualquer pequeno luxo (uso de computador, luzes acesas desnecessariamente, televisão ligada sem ninguém assistindo, geladeira excedente só para cervejas e refrigerantes e outras coisinhas do gênero) em nome de um esforço comunitário para superar a crise. Ouvi também o senhor dizer que a população não seria penalizada, que era necessário um esforço conjunto para sairmos dessa situação e que o governo faria a parte dele.
Em seguida, entra no ar o Comitê de alguma coisa e veio a bomba:-
- 20% de economia na energia utilizada.
(concordo e já estou fazendo).
- 50% de acréscimo na conta para quem ultrapassar 200 kw.
(concordo, qualquer conforto a mais tem que ter um preço).
- 200% de acréscimo na conta para quem ultrapassar 500 kw.
(discordo, é um assalto à mão armada. É pior que o confisco que o finado Collor fez com as contas bancárias. Não concordo nem se, desta vez, por um milagre, o dinheiro arrecadado fosse utilizado para a energia elétrica MESMO.
Por quê os poderosos desviam todo o dinheiro público, não aplicando no que deveria ser aplicado, e sempre nós, a população, temos que pagar a conta? Eu me lembro de uma história semelhante que teve o nome de "Dê o ouro para o bem do Brasil". Muitos brasileiros acreditaram.
Eu não acredito que o senhor seja corrupto, senhor Presidente. Mas se o senhor permitir a corrupção, é cúmplice.
Sobre a ameaça de corte do fornecimento não tenho nada contra, estou disposta a cumprir o que foi pedido, porém não sei mais o que vou desligar aqui em casa para atingir a meta proposta.
Antes de se falar em tantas penalizações para o consumidor, deveria ser feita uma análise de como é cobrada a energia elétrica. Existe um roubo descarado que é a alíquota de ICMS. Aliás, não se consegue saber a alíquota porque o imposto é calculado sobre si mesmo. O ICMS de São Paulo, sobre os produtos, já é um absurdo, mas o que incide sobre a conta de luz é inqualificável.
A situação aqui em casa é a seguinte:-
1. Desliguei ima geladeira e o freezer (mais idas ao supermercado e à feira).
2. microondas proibido de funcionar (mais trabalho porque as pessoas comem em horários diferentes).
3. Forno elétrico aposentado (maior consumo de gás).
4. Máquina de lavar com funcionamento programado (atraso no preparo das roupas).
5. Ferro de passar com funcionamento programado (atraso no preparo das roupas).
6. Desligado aquecedor das torneiras do banheiro (dá para passar sem água quente).
7. computador com uso regulamentado (trabalho com o computador, a receita diminui).
8. Outro computador com uso regulamentado (meu filho não está conseguindo trabalhar e quer ir embora para Cingapura).
9. Vídeo-game com uso regulamentado (meu neto não gostou muito, mas aceitou).
10. Televisão, vídeo, gravador com uso regulamentado (tudo bem).
11. Máquina de costura em repouso (não posso costurar).
12. Luz precária (sem leitura e sem crochê).
13. Luz precária (minha filha não pode pintar).
14. Toca-discos encostado (sem ouvir música).
15. Bebedouro desligado. Secador de cabelos sem usar, fogão aceso com fósforos.
16. Batedeira e liquidificador usávamos pouco; agora não usamos mais. Sanduicheira, torradeira foram guardadas no armário.
17. Velas acesas nos cômodos da casa para evitar o acende-apaga das luzes nos aposentos em que não vamos permanecer.
18. Estou escrevendo esta carta com a luz de 3 velas porque houve um "apagão" particular aqui no bairro.
Resultado:-
Não consigo dormir à noite porque detesto o escuro, e no meu travesseiro fico fazendo cálculos de kw/hora por aparelho, e pensando aonde a vida vai parar se não houver solução para essa crise. Tenho receio também que essas multas colocadas agora sobre as contas de luz, em caráter de "emergência", acabem se tornando mais uma CPMF fixa, vitalícia, indestrutível.
Sacrifício, esforço e trabalho é uma coisa, tortura é outra. Se o sacrifício, o esforço e o trabalho não nos levarem a um bom resultado, o sentimento de inutilidade se fará presente.
Com tudo isso, senhor Presidente, eu quero lhe dizer que não havia necessidade de o senhor dar uma escorregada tão feia no final do seu mandato, deixando o caminho pronto para os defensores dos trabalhadores (Lula e sua corja) se promoverem prometendo consertos que nunca serão feitos.
Eu sei que era importante cuidar das coisas lá fora, mas não era preciso ter ficado cego à corrupção que corria e corre solta aqui dentro do país. Eu sei também que a sua situação não é fácil. Todos querem o cargo de presidente por causa do poder, mas todos saem de lá mais velhos, acabados, cansados, parecendo final de baile das dez às quatro.
Eu entendo também que, mesmo que uma pessoa chegue ao Planalto com idéias honestas e vontade de consertar tudo, ela sucumbe à podridão que está lá há muito tempo e contra a qual ninguém consegue lutar sozinho. Também entendo que não é fácil governar um povo que assiste "Ratinhos, Gugus e Sergios Malandros" e que dá a vida pelo carnaval e pelo futebol.
O povo critica a corrupção dos políticos mas vende a própria dignidade para participar do "show do milhão", por exemplo. O povo brasileiro é corrupto, subornável e preguiçoso em sua maior parte e acaba elegendo os políticos que vão favorecê-lo nisso.
Porém, no meio dessa massa, há gente diferente, como eu e muitos, que são obrigados a sofrer pelas escolhas erradas da maioria. Eu não votei no Collor, mas sofri os efeitos do que aconteceu.
As consequências dessa crise serão graves e podem anular tudo o que o senhor fez de bom em 8 anos de mandato, reeleito em primeiro turno, com o meu voto incondicional. E eu não consigo me conformar com isso.
Atenciosamente:- Juracy Lérco
(Escrevi esta carta mas nunca mandei.
Só quero acrescentar que Fernando Henrique Cardoso
foi a última pessoa a quem eu chamei "Presidente".
Depois dele, o Planalto foi literalmente tomado de
assalto por seres cuja existência não reconheço.)
(Por Juracy Lérco em 26-10-2014)
E hoje sou obrigada a votar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário