Águas

Estava no terraço, olhando a avenida com o trânsito lento por causa da chuva.
A chuva na cidade traz desconforto e inspira maiores cuidados; então, os motoristas perdem o seu bom-humor.
A chuva, na praia ou no campo, é diferente. Ela traz um efeito purificador, ela não influencia negativamente o humor das pessoas, ela é bem-vinda, ela é benéfica. Ver a terra refrescando-se com os pingos de água, e o ar recebendo o cheiro característico da terra molhada, evoca uma sensação agradável de natureza, de vida exposta ao tempo, sem necessidade de abrigos. Mesmo as poças de lama têm aspecto saudável, dá vontade de afundar os pés na lama, como se os puséssemos num calçado diferente.

Na cidade, a lama é nojenta e sempre carrega lixo misturado, e não desperta nenhuma vontade de tocá-la ou ser tocado por ela. A água que corre para o bueiro é diferente da água que corre para o riacho. A água que vai para o bueiro está maculada pelo pó do asfalto, pelos objetos largados pelo chão, pelos restos de alimentos que alguém deixou cair, pela sujeira que cobre as ruas constantemente.

A água que vai para o riacho carrega terra pura, pequenos galhos e folhas caídos das árvores, pétalas de alguma flor que se desmanchou, talvez um fruto maduro demais que caiu no solo, mas nenhuma dessas coisas é impura, nenhuma nos parece "suja".

A cidade paga um preço alto por seu progresso, porque esse progresso sempre implica em devastar a natureza. O morador da cidade perde o contato com a terra, tudo é coberto pelo concreto, enfeitado artificialmente por algumas áreas verdes que não conseguem retomar a ligação das pessoas com a natureza.

Seria bom se as regiões metropolitanas não fossem esse aglomerado de concreto, que endurece tudo, que acaba por endurecer até os corações.
Seria bom se as áreas de construção tivessem espaços verdes, conservados naturalmente, para não quebrar de forma tão brusca o contato da cidade com as árvores, as flores, os pássaros e as águas naturais. 
Seria bom se os rios urbanos não carregassem em seus leitos a poluição da vida industrializada.
Seria bom se os seres humanos não destruíssem  nem agredissem tudo o que é natural para construir suas vidas artificiais.

Eu acredito que as pessoas seriam mais felizes, mais risonhas, mais confiantes e mais amigas.
O concreto acaba transferindo sua dureza para as almas e as pessoas se tornam frias, tristes, mal-humoradas, prevenidas e insatisfeitas. 
Optar por permanecer na cidade por causa das vantagens financeiras e sociais que ela oferece é abrir mão da liberdade. A cobrança vem e logo começam os sonhos  de passar um fim de semana no sossego de um lugarzinho retirado, silencioso e calmo, perto de uma água limpa, e onde caia uma chuva sem resíduos químicos. Uma chuva composta apenas de água.

(Juracy Lérco em 12-02-2015)


Um comentário:

  1. Uma vez postei essa frase: eu viveria com você em uma cabana desolada tendo só o dia e a noite.....
    Seu texto me remeteu a isso,viver em um local cheio de natureza, e onde a chuva seja composta só de água!!!!

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