É melhor eu começar a escrever a você, despedindo-me.
A ilusão fez esse amor sobreviver até agora, mas a ilusão também precisa de alimento para sobreviver.
O seu silêncio deixou minha ilusão anêmica, e ela está morrendo à míngua.
Você me fez um grande bem. Você me fez reconhecer o amor que dormia dentro de mim. Você acordou esse amor, cuidou-o, acarinhou-o e alimentou-o.
Ele cresceu saudável, vigoroso e forte o bastante para lutar por sua realização. Você o alimentou diariamente, com seu carinho, suas palavras doces e sua ternura. Você me fez sentir tudo isso, usando apenas palavras.
Eu me entreguei de corpo e alma a esse amor.
De repente, você se ausentou.
Mesmo o meu amor implorando para ser saciado, você o abandonou para morrer de fome.
Ele ainda tentou sobreviver, alimentando-se das reservas de recordações.
Mas o estoque de recordações, não tendo reposição, também se esgotou. Os suprimentos acabaram e não restou mais nada.
Agora, esse amor está esquelético, só aguardando a morte que demora a chegar.
Esse amor chegou a um tal estado de fraqueza que não tem mais força para tentar se erguer novamente. O fim está chegando e o sentimento inanimado está tomando consciência desse fim e aceitando-o.
Aceitando-o com aquela calma singular que se consegue quando não se espera mais nada.
O fim é uma agonia lenta, mas suportável, porque a dor também precisa ser alimentada para sobreviver, e eu estou negando a ela qualquer tipo de nutrição.
Se o amor morre de inanição, a dor deve morrer pela mesma causa, já não dói.
Há apenas aquela sensação que se apresenta quando um membro é amputado. De vez em quando, parece que ainda está presente aquele pedaço de nós que foi arrancado. Mas logo volta a consciência de que mais nada está ali.
Eu vou me despedindo de você, como se estivesse sendo arrastada pelo vento, para um lugar muito, muito longe, onde nunca mais poderei senti-lo, onde nem seu vulto poderá me acompanhar.
(Juracy Lérco em 20-02-2015)

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