Difícil de definir

De todas as frases que eu já li sobre o que é amar, a mais profunda e verdadeira é:- " Amar não é olhar um para o outro, mas olharem ambos na mesma direção. "
Quem já ouviu falar sobre o " I Ching ", Livro das Mutações, ou quem se dedica ao seu estudo, sabe que é um livro de sabedoria que responde a toda e qualquer necessidade que uma pessoa possa ter em qualquer aspecto da sua vida. Só é preciso saber ouvir e meditar sobre as respostas. 
Temos traduções desse livro que conservam os dizeres metafóricos originais, difíceis de compreender.
Temos também livros em que as metáforas foram decodificadas e se apresentam na linguagem comum.
Por mais competentes e inteligentes que um tradutor ou um escritor possam ser, sempre haverá o risco de parcialidade, Traduzir os caracteres chineses demanda mais que o conhecimento de línguas, é preciso viver a cultura chinesa, pensar como um chinês. A decodificação das metáforas também exige uma capacidade  capaz de abranger todas as maneiras de pensar. A interpretação de textos é uma das provas mais difíceis que existe, porque cada ser humano tem a sua maneira de pensar e entender, que é única e intransferível.

Mesmo assim, os livros são bons e vale a pena estudá-los para o nosso crescimento pessoal, desde que conservemos a nossa busca pessoal pela nossa verdade, dentro de todas as verdades.
Como a Bíblia, o I Ching foi escrito  por homens que ouviram. A Bíblia é considerada por muitos a palavra de Deus. O I Ching é considerado por muitos a palavra do sábio. Antes de adotarmos um ou outro como nosso guia para a vida, devemos ter em mente que a Bíblia é a palavra de Deus na forma como foi entendida e interpretada pelos homens, e o I Ching é a palavra do sábio na forma como foi entendida e interpretada pelos homens.

O I Ching é composto por 64 hexagramas, símbolos formados por seis linhas, que podem ser inteiras ou partidas, que se juntam nas combinações possíveis, mostrando através da comparação com um elemento apropriado (terra, água, céu, madeira, ar, fogo, montanha) a interação dos opostos complementares existentes em toda a criação, obedecendo às leis universais. A linha inteira é o Yang, a força ativa, e a linha partida é o Yin, a força passiva ou receptiva. Da atuação dessas duas forças combinadas em excesso , escassez ou equilíbrio é que vão se manifestar todos os efeitos da Vida, visíveis ou invisíveis. A compreensão da atuação dessas forças é que vai nos permitir conhecer os processos da vida e nos posicionarmos para que ela nos seja favorável ou desfavorável

A natureza faz isso de forma automática. Está intrínseco ao que é natural comportar-se de acordo com as leis universais. Os seres humanos precisam aprender, porque, diferente da Natureza, são dotados de desejo, vontade e imaginação e quase nunca estão dispostos a aceitar essas leis. 

Viver de acordo com as leis universais é o que os orientais definem como "ser co-criador do próprio destino". Os ocidentais chamam de livre-arbítrio moldar a Natureza para que ela se torne favorável aos seus propósitos. São duas maneiras distintas de encarar a vida. Uma respeita o momento da atuação das forças Yin e Yang e, através da receptividade, permitem que essa atuação seja favorável. A outra maneira tenta interferir no processo, acelerando-o ou retardando-o e convive com a oscilação da atuação; ora a vida é favorável, ora é desfavorável.

Os opostos estarão sempre presentes, porque a vida é o moto-contínuo. Bem e mal, certo e errado, alegria e tristeza, sucesso e fracasso, amor e ódio, guerra e paz são alguns exemplos da nossa visão dual das coisas. A primeira lição para saber viver é não focarmos nosso olhar ora num lado ora no outro, como se assistíssemos a uma partida de pingue-pongue. Os aparentes opostos são extremidades de uma mesma linha. Se conseguirmos manter o olhar no centro da linha, não seremos arrastados para as extremidades, sendo obrigados a viver felizes para em seguida viver infelizes. A direção do nosso olhar tem que estar no nosso objetivo, não podemos permitir que  oscilações de nenhum tipo nos desviem do que queremos para a nossa vida.

Entre os 64 hexagramas que compõem o I Ching, temos 4 que falam do relacionamento homem-mulher. O I Ching raramente fala de amor, mas descreve nesses quatro hexagramas o que acontece entre esses opostos complementares homem-mulher, desde o começo da influência que exercem um sobre o outro, até se tornarem um casal, unido pelo sentimento do amor. D
iscorre também sobre o respeito mútuo que o casal precisa manter para com a individualidade de cada uma das partes da união. 

A união de dois seres pelo sentimento do amor recíproco sempre tem como finalidade uma nova criação. Quando essa união é o casamento formal legalizado, acrescenta-se um compromisso com a sociedade e seus valores. A maioria das pessoas acredita que a nova criação contida na finalidade da união é a formação de uma família, o nascimento de filhos.

Quando a união é o casamento das essências, das afinidades que se complementam, não há necessidade de compromissos com a sociedade ou a formação de uma família. A finalidade é uma nova criação com um alcance diferente. São dois seres que se unem para um crescimento conjunto e que vão ter como filho a humanidade toda. 

Um relacionamento surgido do amor só acaba ou se transforma se houver mudança de foco do objetivo para os aparentes opostos. Se um dos amantes mudar o foco de seu olhar, não enxergando mais a individualidade do outro , fascinado pelo sentimento de posse ou poder sobre o outro, começam os desentendimentos. O olhar se retirou do objetivo da união e se focou no objeto do amor. Começam as críticas, as sensações de que se uniu à pessoa errada, e os opostos, que antes eram complementares, passam a ser vistos como defeitos. O foco se estreita mais ainda quando um começa a desejar que o outro mude, em seu benefício.

Na verdade, esses amantes se uniram pela ilusão do amor, e não pelo verdadeiro amor. Tudo o que parecia uma forte atração para uma sólida união não passou de uma troca de energias que cumpriu sua função e não é mais necessária.

Amar de verdade é conhecer a essência um do outro. É sentir o outro dentro de si mesmo como um complemento. É se tornar parte um do outro a tal ponto que nada funciona se não for em conjunto. É trabalhar pelo crescimento um do outro, como se fosse por si mesmo, porque a sensação é de que é por si mesmo. Os opostos se agregam de tal forma que se tornam uma coisa só, e essa unidade nunca vai interferir com a individualidade de cada um. Ambos sabem o momento exato de funcionar como indivíduos e o momento exato de funcionar em conjunto. 

Esse amor é capaz de beneficiar tudo e todos à sua volta, porque não é egoísta, são os seres que amam, não as pessoas. Esse amor cria uma fonte inesgotável que deseja fluir e abranger cada vez mais coisas ao seu redor. Esse amor traz consigo a necessidade de se estender aos demais, de repartir seu estado de graça com as outras criaturas. 

A frase " Amar não é olhar um para outro, mas olharem ambos na mesma direção " é a definição mais perfeita que já foi conseguida para a emoção mais difícil de ser definida, porque é também a mais difícil de ser verdadeiramente sentida.

(Juracy Lérco em 11-12-2014)

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