Cenário

O rompimento de uma relação sempre vai doer mais no parceiro que permanecer no cenário das coisas que foram vividas em comum. 
Qualquer que seja a causa do fim, a morte ou a separação, aquele que permanecer no local onde fluiu a vida a dois vai sentir a continuidade da relação, agora só imaginária.

A dor virá cada vez que se olhar para um móvel, uma roupa, um livro, um disco ou qualquer outra coisa que a outra pessoa tenha tocado ou usado. 
A voz vai ser ouvida, dizendo uma frase qualquer.
Os gestos vão ser recordados, como se estivessem acontecendo naquele momento.
Tudo o que estiver associado às vivências compartilhadas não sai da memória porque está vinculado ao cenário que foi comum aos dois, que emoldurou a história.

A igreja frequentada, o cinema onde se trocou beijos assistindo uma história de amor ou onde se riu muito vendo uma comédia, as ruas percorridas de mãos dadas, as paradas no caminho para um sussurro no ouvido, a corrida para tomar o ônibus, o guarda-chuva compartilhado, as juras trocadas, a intimidade entregue na cama, o abraço carinhoso e aconchegante para consolar um dia ruim, a palavra calma e terna transmitindo segurança e esperança são lembranças que se mantém vivas, que não querem morrer.


Ao passar por um local onde foi trocado um beijo, ou mesmo onde ocorreu uma calorosa discussão, há uma sensação de presença, em contraste com a dura ausência. Tudo em volta evoca a lembrança e ela vem, perfeita, nítida, causando uma imensa dor.

Se esquecer é necessário, para livrar-se do sofrimento, o melhor a fazer é mudar o cenário. Mudar os móveis, mudar as roupas, mudar de casa e até mudar de cidade. Mudar até os amigos. Conhecer gente nova para construir novas lembranças.

O cenário escraviza porque a associação do sentimento com o que está em volta não pode ser evitada, assim como a música ligada ao evento vai trazer sempre a mesma recordação. 
O único remédio para libertar-se é começar de novo, com novo cenário, nova música, e carregar-se de energia para acreditar que o novo sonho vai se realizar.

Se der certo, ótimo. Se não der, começar de novo e de novo, quantas vezes se fizer preciso, até conseguir.

(Por Juracy Lérco em 22-12-2014)


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