Pais e Filhos

O condicionamento de um indivíduo, mesmo quando resulta num comportamento aceitável ou favorável, sempre é algo negativo porque significa uma imposição ou manipulação de uma personalidade sobre outra.

Existem condicionamentos oriundos de muitos fatores, porém, os piores e mais difíceis de superar são aqueles causados pelos pais, através da educação, impondo comportamentos que podem ter servido para eles, mas que, para os filhos, podem ser inúteis ou prejudiciais. Muitos pais chegam a extremos, como dar seu próprio nome aos filhos, com a extensão "filho", "júnior" ou uma letra romana (II, III). É o mesmo que dizer a uma criatura que acaba de nascer:- "olha, você vai ser igual a mim, você é uma extensão minha, você não tem identidade própria".

Na minha opinião, já deveria haver leis que considerassem provisório o nome dado a uma criança, um nome que ela pudesse mudar quando atingisse a idade em que pudesse escolher.Assim como a filiação a uma religião também deveria ser provisória, para que o adulto pudesse escolher o deus em que quer acreditar. 

Esses condicionamentos de nome, religião e encaminhamento para uma profissão são as piores manipulações que uma mente que naquele momento detém o poder (os pais) usa para subjugar outra mente que ainda está em formação (os filhos). Já houve a limitação de muitos por cento do potencial da mente em desenvolvimento. Já foi criada uma prisão, da qual é difícil escapar porque ela é doce, amorosa e proporciona a segurança emocional que a nova mente precisa para seguir com a vida. A nova mente ainda não tem maturidade para optar e é compreensível que os pais só podem transmitir a ela os valores que possuem. Porém, os pais deveriam sempre deixar claro que a possibilidade de libertação ou mudança virá na época adequada. A mais triste realidade é que a maioria dos pais encara seus filhos como sua continuidade, não como novos indivíduos com direito a uma existência independente da sua própria.

Um pai que dá ao seu filho o seu próprio nome, ou o nome de seus ancestrais, está negando ao novo ser a possibilidade de existir por si mesmo. O filho é mera continuidade sua, é o seu desejo de não morrer. É o cúmulo do egoísmo inutilizar uma nova existência incorporando-a. É também o direito de posse exercido além dos limites, invadindo uma propriedade que não é sua.

Um pai que batiza seu filho sob os preceitos de uma religião, em seu nome ou da tradição familiar, sem admitir para ele que há inúmeras opções que ele mais tarde conhecerá, estará aprisionando seu filho, acorrentando-o àquilo em que ele acredita e que não será, necessariamente, no que o filho vai acreditar um dia. O raciocínio literal que afirma "bom para mim, bom para ele" é a premissa mais falsa da educação porque já decide, a priori, as escolhas de uma outra criatura. Filho não é extensão nem propriedade.

Um pai que educa seu filho para uma profissão que ele já exerce ou sonhou exercer também está centrado em sua própria continuidade. Nem sequer vai observar os talentos com que seu filho nasceu e que podem ser diametralmente opostos aos seus próprios. Na maioria dos casos, os herdeiros poem a perder o patrimônio dos pais. Isso ocorre porque esse patrimônio não se identifica com eles, não foram eles que o construíram, não puseram nada de si nessa construção e pouco lhes importa que desmorone. Há também os casos de o pai ter sonhado em destacar-se em alguma profissão e ter visto o seu sonho frustrado. Projeta, então, o seu sonho no filho, ignorando se há talento para isso ou não. O que consegue é ajudar seu filho a se tornar um profissional medíocre e desinteressado que vai trabalhar com algo que não aprecia, renunciando às suas verdadeiras aptidões. 

No dia em que as pessoas se conscientizarem que ter filhos é dar continuidade à humanidade e não à individualidade, pensarão dez vezes antes de se responsabilizarem  pela educação de novas vidas. 

A tarefa dos pais é ensinar, educar e preparar o novo ser para ocupar seu lugar no mundo e é óbvio que sói podem fazer isso com o arsenal que possuem. Mas há uma maneira de não prender, não condicionar, não limitar, não anular e não causar traumas irrecuperáveis. Basta enxergar que os filhos são novas vidas que vão se expressar com seu próprio potencial. Filhos não são propriedades, não são cópias, não são bonecos, não são papel em branco para os pais escreverem o que quiserem. Valores não são impostos, valores têm que ser descobertos pela natureza de cada um. Não custa acrescentar à educação a noção de liberdade interior, deixando sempre uma porta aberta para que os filhos descubram por si mesmos para o quê vieram. 

Por filhos no mundo é muito fácil. O difícil é por o mundo nos filhos.

(Por Juracy Lérco em 04-11-2014)


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