São essas coisas que acontecem para as quais não há muita explicação racional. É muito difícil traduzir emoções ou sensações para a linguagem do raciocínio.
De repente, eu me vi percebendo que eu o amava de duas formas.
Quando era a razão que estava no comando, eu via o meu amor como alguém astuto, sempre pronto para mentir-me, sempre se esquivando de me dar respostas, sempre escondendo alguma coisa de mim. Nunca me amando o suficiente, nunca parecendo o meu verdadeiro companheiro, nunca alcançando a profundidade do meu amor, nunca me acalmando a ansiedade.
Quando o coração assumia o comando, eu o via dentro de mim, como se fôssemos um só, via a ternura e a meiguice com que ele me tratava, a delicadeza de suas palavras, a suavidade de seu toque, como se eu fosse de cristal e ele temesse quebrar-me. Sincero, meigo, partilhando seus anseios comigo, tratando-me como amante nos momentos de paixão, mas principalmente tratando-me como sua melhor amiga nos momentos de descanso. Confiante, abrindo seu coração para mim e me entregando seus mais profundos segredos.
São poucas as pessoas que têm a percepção para entender as duas formas de amar e agir da maneira adequada e eu não pertencia a essas poucas. Só compreendi isso agora, depois de ter afastado o meu amor de mim, permitindo que a lógica e o raciocínio decidissem, passando por cima do meu coração. Foi uma vitória da razão à custa da derrota do coração. O meu ego me parabeniza porque acha que eu fiz a coisa certa, porque tomei a decisão lógica. O meu coração chora baixinho por eu ter-lhe negado a oportunidade de ser feliz.
De dia, enquanto o mundo da razão é soberano, é fácil fazer tudo automaticamente e tocar a vida prática.
De noite, quando a razão faz silêncio e os sentimentos podem aparecer, é uma dor na alma, intensa, profunda, um vazio que nenhuma lógica consegue preencher.
Tomei a decisão errada porque sou um ser emocional por natureza e desrespeitei o que há de mais puro em mim, disfarçando-me com a racionalização e a prática. Sou razão apenas para o mínimo necessário, para o resto eu sou toda coração. Não sabia disso e agredi quase que a totalidade da minha natureza.
Esse disfarce vinha de muito tempo. Só uma vez na vida, alguém me disse que eu era meiga, e ainda foi com uma frase assim:- "nossa, ela consegue ser meiga..."
A meiguice é a qualidade que mais aprecio nas pessoas e eu encontrei isso no meu amor. Talvez tenha sido inveja por eu nunca ter conseguido mostrar a minha própria meiguice, enterrada bem fundo, para ninguém ver, como se fosse uma vergonha ou uma fraqueza.
O medo de sofrer leva-nos a carregar armas e apontá-las para todos, mesmo que não sejam ameaças. E as atitudes que tomamos para não sofrer acabam por nos trazer sofrimentos maiores que os imaginados.
Não sei se a lição que aprendemos serve para alguma coisa, depois que perdemos o que mais amávamos. Em todo caso, lição registrada.
Crescemos em sabedoria, se isso é consolo.
Para mim, não é.
(Por Juracy Lérco em 16-11-2014)

Nenhum comentário:
Postar um comentário