O quê é uma salada?
O QUÊ É UMA SALADA?
Costumamos chamar de “salada” uma mistura de verduras, legumes ou frutas, que podem ser crus ou cozidos, e são regados com um molho, suco ou tempero.
Os cozinheiros famosos acrescentam ingredientes mais ousados, como certos tipos de queijo, carnes defumadas, frutos do mar ou ervas finas. “Fina” significava estreita, mas passou a significar “requintadas”, “sofisticadas”, reservadas a poucos mortais privilegiados.
Além do significado culinário, a “salada” passou a definir qualquer tipo de mistura, seja de estilos, de decoração, de devoções religiosas, de filosofias, de profissões ou até de músicas, letras, línguas, etc. O termo “salada” é em si mesmo um pequeno dicionário.
Isso me faz pensar que a “salada” talvez seja útil para definir o perfil psicológico de alguém. Os psicólogos, os psicanalistas, os criminalistas podem usar a “salada” como um teste para analisar o comportamento de alguém. Os resultados podem ser surpreendentes e revelar facetas da personalidade da pessoa objeto do estudo.
Por exemplo:- quando eu vou fazer uma salada, preciso dos seguintes ingredientes:- alface de três ou quatro tipos, tomates entre verde e vermelho, ovos cozidos cortados em quatro partes longitudinais, azeitonas verdes e pretas, cenoura, beterraba e repolho crus ralados, pepinos em rodelas, vagens cozidas cortadas na metade, salsinha e cebolinha picadas e cebolas cortadas em rodelas.
Numa grande travessa oval, disponho as folhas de alface em toda a volta, com as bordas para fora, como uma moldura. Em seguida, os tomates cortados em rodelas formam uma carreira em toda a volta, com uma beirada de fatia em cima da próxima fatia, semelhante a uma fileira de dominós derrubados. As rodelas de pepino são colocadas da mesma forma que os tomates, um pouco mais para dentro da travessa. No centro, as vagens cortadas formando um tapete que serve de base para os ralados (cenoura, beterraba e repolho). Os ovos cortados são dispostos verticalmente, formando um oval, como uma cerca para os ralados. As azeitonas pretas são colocadas a cada duas rodelas de tomate e as azeitonas verdes são colocadas a cada duas rodelas de pepino. A salsinha e a cebolinha são salpicadas em cima de tudo, caindo aqui e ali, enfeitando os demais ingredientes. As rodelas de cebola vão cvobrir tudo, como uma cortina transparente.
Esta é a minha ideia de salada. Vou tentar uma análise. A minha salada é um prato que fica muito bonito e onde cada coisa está no seu devido lugar. As pessoas podem não querer comer para não desmancharem o prato. Reflete que eu sou uma pessoa metódica, que necessita de um estado de ordem para as coisas que pode parecer chato e monótono. Os convidados para o almoço podem se sentir intimidados. Reflete que sou uma escrava da simetria e incapaz de enxergar o abstrato. Imediatamente associo com o fato que não gosto de arte moderna. Acho que a arte moderna é uma desculpa para a falta de capacidade em retratar verdadeiramente as coisas. Minha salada jamais se pareceria com um quadro de Jackson Pollock. Não gosto de me afastar do real e mergulhar no abstrato. Reajo negativamente às mudanças.
Será que a minha salada feita com tanto esmero é realmente para alguém comer ou só para enfeitar a mesa e agradar meus olhos? Será que é para mostrar aos outros como eu gostaria que fossem as coisas, como eu gostaria que fosse a vida?
Nessa hora acontece uma coisa peculiar. Uma espécie de respeito pela liberdade alheia. Eu quero, de verdade, que apreciem a salada que eu fiz com tanto gosto. Não me importa que o prato será desmanchado, que a ordem e a beleza vão “pro brejo”. Quem gosta de alface, que coma alface; quem gosta de vagens que as procure no fundo da travessa; quem não gosta de cebolas que as retire e jogue fora.
O prato virou um caos. O importante é que cada um comeu o que lhe apetecia e eu fiquei muito feliz.
(por Juracy Lérco 22-01-2011)
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